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sábado, 28 de março de 2015

Lynda Benglis



Just to put things where they belong


As two heavily made-up women take turns directing each other and submitting to each other’s kisses and caresses, it becomes increasingly obvious that the camera is their main point of focus. Read against feminist film theory of the “male gaze”, the action becomes a highly charged statement of the sexual politics of viewing and role-playing; and, as such, is a crucial text in the development of early feminist video.

“This video is Benglis’s emphatic response to the notion of a distinctly feminine artistic sensibility and to the belief in a necessary lesbian phase in the women’s movement—ideas that were often debated in the early 1970s.”

—Susan Krane, “Introduction”, Lynda Benglis: Dual Natures (Atlanta: High Museum of Art, 1991)

This title was in the original Castelli-Sonnabend video art collection.

—in Video Data Bank (video)


Centerfold by Lynda Benglis published in Artforum magazine, 1974.
 

Lynda Benglis by John Baldessari 


@ Interview, March 2015

JOHN BALDESSARI: The first thing I want to say about you, Lynda, is how much you've been an influence on me, all the way back to when I first started going to New York in the late '60s and '70s and I saw your work at Paula Cooper Gallery. They were showing your poured pieces. And jumping forward to today, I know how much of an influence you are for younger artists. I have a young protégé, a student of mine, who is very much influenced by your idea of materials, rather than art as some abstract thing. And I know when we both taught together at CalArts, what a huge impact you had on the students. For that time, you were a real Angeleno. [laughs] You went to all the openings.

LYNDA BENGLIS: I think the only time I went to your house for a little get-together, I thought my Porsche was a bumper car. I banged up the front and back of it getting to wherever I was going. Now, I was trying to think of when I first saw your work, John. It was before I met you. Was it your first New York show at the Feigen Gallery?

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Benglis in a 1974 photograph @ Wikipedia


Wikipedia on Lynda Benglis

Lynda Benglis on Pinterest

sexta-feira, 27 de março de 2015

The Art Girl

Barbara Kruger ' We don't need another hero', 1987 (cropped)

A discriminação de género nas artes continua. Porquê?


“O que é a arte hoje? Talvez seja este um momento de reflectir sobre os propósitos da arte, sobre as audiências e sobre o que se dá a ver.

Assistimos a um momento em que a internet se abre aos artistas, tanto como via de divulgação dos seus trabalhos, mas também, como um negócio. Um mundo onde se abrem concursos ao minuto, onde em nome de promessas de exposições e divulgação, se promovem concursos semanais, em troca de inscrições a 15$ por cada imagem submetida”—The Art Girl.

Um blog português sobre o lugar das mulheres na paisagem artística dominante.

Mas também um blog sobre o endividamento crescente dos artistas, sobretudo daqueles que caem no caldeirão sem remédio das cadeias oportunistas da certificação académica e curricular, quase sempre sofisticados mecanismos de abuso do trabalho voluntário de dezenas de milhar de artistas à procura de uma oportunidade.

Um blog de artivistas para quem a arte não vive suspensa no limbo de ingenuidade perfeita.

A desproporção entre o número de mulheres licenciadas em arte, e de mulheres artistas praticantes, e a representação hiper-minoritária das mesmas em exposições, nos museus e na história e crítica de arte, persiste como um exemplo de que o Feminismo dos anos 70 não cumpriu a missão a que se propôs. Talvez seja esta a causa de um notório ressurgimento da discussão sobre o género nos processos de legitimação e valorização ecomómica da arte atual. O Feminismo está de volta, e com razões de sobra para exibir a sua nova irritação de género!

A arte portuguesa sofre do sonambulismo, do conservadorismo e dos comportamentos palacianos e burocráticos ancestrais da nossa sociedade. Mas não tem que ser assim.

Long live The Art Girl !

quarta-feira, 25 de março de 2015

Herberto Helder: poesia completa (1930-2015)

Antonio Cerveira Pinto. Herberto Helder, corpo e alma (2015)
Foto original—autor desconhecido


Palavra, a alma das coisas


“No sorriso louco das mães batem as leves/ gotas de chuva (…)”

45 carateres chegam para sintetizar uma flor no meio da fatalidade. Esta é a grandeza da poesia que por vezes me assusta. O poder que dela emana quando mergulhamos nas suas palavras e espaços brancos tem muito do que as religiões têm: a força de religar o espaço e o tempo, a matéria e o nada, a vida e a morte. A palavra pensada para sentir, proferida para seduzir, escrita para guardar, é o que por vezes sobra de toda uma vida de ilusão, pessoal, familiar e ética.

Jorge de Sena, creio, diferenciava o poeta erótico que é Camões, do poeta álgico que Pessoa foi. Com Herberto Helder, o pêndulo da poesia regressa ao fulgor da carne, fenómeno cru do pensamento, de que só por cobardia, devaneio ou servidão desviamos o olhar, a atenção devida, ou a sabedoria.

Herberto foi reescrevendo uma e outra vez a sua Poesia Toda, amarrada num tijolo único de vida literária, ao longo da sua escrita. Poesia Completa foi o bater da porta, definitivo.

Herberto Helder é um poeta da carne e da terra, mas não da história, nem das ideias, e neste ponto talvez possamos ver em Fernando Pessoa a metade que lhe falta, ou faltava a Pessoa, para serem uma herança acumulada e narcisista—entendida a modernidade e a contemporaneidade exacerbadas dos últimos duzentos e tantos anos, como foram—de Luís de Camões.

“(…) a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,/ e tu olhas para as coisas pequenas/ e para onde olhas é essa parte alumiada toda”.


DA IMPRENSA

terça-feira, 24 de março de 2015

Post-Internet Art (1)


Uneasy immersion


Material worlds as we perceive them are similar but fundamentally different from representations, virtual reality, or immaterial worlds. Post-Internet Art operates as a typical deconstructionist approach to this duality, as a way to retrofit or to reverse engineer these two variable dimensions of Life. In our post-contemporary era offline and on-line worlds together become  a new subject matter as well as new media for art agency. Jon Rafman's videos show this duality as a post-dadaist collage with narrative and drama.

Jon Rafman, Mainsqueeze (2014)

By Domenico Quaranta
Dismagazine

Hundreds of people stuck in a giant swimming pool passively floating to the rhythm of artificial waves. The poor resolution of the found footage muddles them into a contextless and faceless crowd. Nobody tries to escape the crowd, or go against the current. They are trapped but happy enough. It’s like Dante’s Inferno but without the drama. Just the people floating in the mud.

The final scene of Mainsqueeze captures “a contemporary atmosphere or mood” which sets the present as a time out of joint, encapsulated by the washing machine that tears itself apart over the course of the film. Rafman poses the present escape from the real towards the simulated as the result of a general feeling of turmoil that leads to flight rather than revolt. In the video, the first readable line of text is written on the forehead of a sleeping drunk man at the beginning of the film: “LOSER”. He smiles, and we are led to wonder who the loser really is.

Yet Rafman is not making a particular ethical statement: “Mainsqueeze expresses a moral condition or atmosphere without making a moral judgment. I gravitate towards communities like 4chan because I see in them a compelling mix of attraction and repulsion. This ambivalence is reflected in the current cultural moment.”

Read full article

Jon Rafman's website


On Post-Internet Art

“What Is Post-Internet Art? Understanding the Revolutionary New Art Movement”
By Ian Wallace
Artspace, March 18, 2014

segunda-feira, 16 de março de 2015

Trust me

Antonio Cerveira Pinto
Trust me, 2015
Digital picture


O silêncio da arte portuguesa é, por vezes, ensurdecedor


Se nos dedicássemos apenas à pintura, à pintura abstrata, ou à fenomenologia minimalista, seria compreensível manter silêncio sobre o colapso em curso do sistema financeiro e sobre a sorte nada invejável de alguns banqueiros, financeiros e especuladores profissionais, passando ao lado da imensa tragédia que entretanto se abateu e segue a sua rota destruidora contra milhões de pessoas e contra muito do que as rodeia.

Mas, que eu saiba, a arte tem vindo a derivar para uma espécie de comentário filosófico, antropológico e até político sobre a realidade que conceptualiza e transporta em filigrana, seguindo estratégias mais ou menos metonímicas, para dentro das galerias de arte, museus, bienais e outros eventos semelhantes.

No entanto, pelo menos em Portugal, a dita e redita arte contemporânea, ou está calada, ou prefere comentar o que está para além das suas vivências quotidianas.

Pensará, provavelmente, que estamos tão só na presença de uma tempestade violenta, mas passageira.

Gostaria, no entanto, de avisar os artistas como eu, os curadores como eu, os escritores e críticos como eu, e as instituições em geral, para a natureza sistémica deste temporal.

As coisas não ficarão como dantes, sobretudo no mundo do chamado consumo discricionário e cultural.

Quererão conversar sobre isto?

sábado, 14 de março de 2015

Vintage, 1985

Antonio Cerveira Pinto
Pintura repetitiva (Repetitive painting], 1985
135 cm x 200 cm
Col. Museu Berardo

Two paintings in a burning court *


In post-contemporary times reality has been split in two: the old space-time fashion, where everything takes place per se, and which we partially see, hear, smell, feel, touch and learn as indexes, prototypes and memories (Gell, 1998), and the new given digital and wireless extension of human species, non space related, asynchronous, dynamic, moveable, generative, immaterial, etcetera.

A large portion of humankind is already embedded in these two worlds, and these two worlds control almost all behavior towards perceived inner and outer spaces, space-time events as well to all inner and outer perceived indexes and prototypes.

There is no point in judging these two orders of reality, as it is useless to divide these two relational states.

The fast-growing world of computer machinery depends on us as users, as well as on growing energy feeding. Apart from out-of-control nuclear chain reactions and bio-epidemics, generative and computational digital worlds are human extensions and cannot survive unless for our own will.

To summarize this idea, stones are older in comparison to humans, we usually have larger time frames that machines have, digital caves outburst from old hardware, and organic computers may eventually remove in the future silicon motherboards and flat screens as the prevailing cognitive engines and sensitive interfaces.

To foster such developments though we have to return to our fleshy realm.

There is more beyond images and representations in every painting. Photography, and digital photography, as well as any spectrum, operate as layers of forms (gestalt) that add to a more deep perception and understanding of any index, as a painting is. But we still have that painting to contemplate, that real and that mental river in front of us to cross. It is this time-based painting, a duration ('la durée', according to Henri Bergson) that informs nothing that gives us a phenomenological permission to challenge once more the premature death announcement of painting as art.


*—This is a note about an installation to be shown at MOSTRA '15, in April, 2015, with the following title: Vintage, 1985—two paintings in a burning court.

sexta-feira, 13 de março de 2015

The feminism is back to art activism

See Wikipedia's description

Time for a new male/female discussion on contemporary art territories

Demographics are changing in favour of women. They outnumber males in art schools, they outnumber males at the graduation ceremonies, but they still have it hard when trying to get a show in a gallery, or to be part of a private or public art collection. Why is that? I can only guess.

When Shulamith Firestone wrote in 1970, “Feminism, when it truly achieves its goals, will crack through the most basic structures of our society,” she couldn’t have predicted she was referring to Wikipedia.
Although it’s user-driven, and so still not considered a scholarly source, Wikipedia has become an undeniable part of the status quo since its creation in 2001 — it’s the seventh-most visited site on the internet. Though there had long been speculation about gender disparity on the site, the first study to measure the gap wasn’t conducted until 2010, and the results were dismal: only 8.5–16% of editors on Wikipedia are women, with just 1% transsexual or transgender. As of this writing there have been no official studies on multicultural participation and representation on the site. Perhaps the largest hurdle to gathering such data is that it takes being well versed in Wikipedia to do so.

—in “Art-Minded Feminists Become Wikipedians for a Weekend”
by Sarah Cowan on March 12, 2015. Hiperallergic

A diagram for action

Click to zoom in

Female artists in three Portuguese art collections (est.)


  • CAM-Centro de Arte Moderna, Lisboa: 237 female artists in 1135 authors (20,8%) 
  • Museu Berardo, Lisboa: 58 female artists in 565 authors (10,3%) 
  • Ellipse Foundation, Sintra: 29 female artists in 114 authors (25,4%)

segunda-feira, 9 de março de 2015

Feminismo e pós-feminismo

Lucretia Mott (1793 - 1880), pioneira dos movimento pelos direitos das mulheres.
Pintura de Joseph Kyle (1815 - 1863). - no Smithonian National Portrait Gallery

8 de março, Dia da Mulher

ANTONIO CERVEIRA PINTO

Duas das maiores impulsionadoras do movimento pelos direitos das mulheres não eram propriamente anarquistas, nem militantes de esquerda. Lucrecia Mott era uma sacerdotisa Quaker e professora norte-americana. Quando descobriu que o seu salário era 1/3 daquele que qualquer colega seu homem auferia decidiu-se a lutar pela igualdade de géneros, ampliando assim o foco libertário de uma religião que desde a Revolução Americana defendia a abolição da escravatura.

Estátua de Emmeline Pankhurst inaugurada em 1930, Londres

Por sua vez, a inglesa Emmeline Pankhurst, depois de ver frustrada a sua tentativa de entrada no Independent Labour Party (ILP), acabaria por filiar-se, em 1927, um ano antes da sua morte, no Partido Conservador, depois de ter fundado, entre um episódio e outro, o Women's Social and Political Union (WSPU). Em 1928, menos de um mês após a sua morte, o Partido Conservador estendia o direito de voto às mulheres com mais de 21 anos.

Fotografia do chamado Bra Burning; 'Freedmon Trash Can', 1968
A segunda grande vaga de feminismo deu-se nos anos 60 do século passado, sob o impulso do movimentos estudantil, anti-guerra (do Vietname) e hippie. O livro de Betty Friedan, The Feminine Mystique, publicado em 1963, foi o rastilho ideológico do qual saira, nomeadamente, o movimento NOW, National Organization for Women.

Madonna foi, nas décadas de 1980 e 1990, um dos marcantes fenómenos do pós-feminismo

Nos anos 80 do século passado começou a falar-se da morte do feminismo, de pós-feminismo, e o que vimos foi, na realidade, uma espécie de explosão neoliberal, sexista e comercial do feminismo em formatos, por vezes, misóginos e hiper-narcisistas—com todas as angústias que um tal fenómeno não poderia deixar de provocar entre muitas raparigas e mulheres nos seus vários trânsitos geracionais.

Sobretudo na música e na moda as mulheres tomaram as rédeas da sua exposição erótica e do seu próprio negócio corporal. Num certo sentido, podemos dizer que o feminismo atingiu aqui o seu zénite, assumindo os direitos e o controlo da exposição do corpo, da intimidade e das narrativas, incluindo o universo e o negócio da pornografia.

Estamos no século 21. Um século mais implosivo do que explosivo, marcado pelo regresso futurista, em modo Twitter e Instagram, de fantasmas do passado. O sexismo parece começar a ceder a um pós-feminismo envolvido em causas sociais e morais agudas, umas feministas e outras mais abrangentes, ou focadas nas novas vítimas da violência e exploração sem limites: os conflitos geo-políticos que usam o ultraje e a violência medieval contra as mulheres como agenda de terror mediático, ou a pedofilia.

Um bom artigo sobre este tema:

Who's Afraid of Post-Feminism? What It Means To Be A Feminist Today
Jenna Goudreau, Forbes, 12/13/2011

Recently explored in New York magazine’s “The Rebirth Of The Feminist Manifesto,” the new-media feminists and “lady-centered blogosphere” have created a new vocabulary: Womanist, girrl, mujerista, women’s liberationist, anti-oppression activist.

“I consider myself a hip-hop feminist,” says Latoya Peterson, 28, editor of the blog Racialicious. “The term ‘feminist’ is complicated for me, largely for reasons of race and class.” But the underlying beliefs are ever present: “Ultimately, the idea is an equitable society–and everyone should be able to get behind that.”

“What women will sometimes do is say ‘I’m no feminist but…’ and then everything that comes out of her mouth is rip-roaring, furious feminism!” laughs longtime activist Morgan. “The bottom line: I don’t care if a woman wants to call herself ‘squirrel,’ as long as she fights for herself and other women.”

POST SCRIPTUM

Ana Mendietta, 1972
Cortesia: Southbank Centre, London

O tema do feminismo e do pós-feminismo na arte tem sido frequentemente abordado por artistas mulheres, destacando-se nomeadamente as intervenções pioneiras das WAR (Women Artists in Revolution, 1969), a A.I.R. —primeira galeria de arte contemporânea feminista— e autoras como Judy Chicago, Carolee Schneeman, Marcia Tucker, Ana Mendietta, Guerrilla Girls (1985 -), ou ainda a influente crítica e especialista em arte contemporânea Lucy Lippard.


Women Art Revolution (2010)— a film by Lynn Hershman Leeson

Tal como noutro domínios, também na arte contemporânea o tabu feminista arrefeceu, passando do radicalismo plástico e performativo de Carolee Schneeman, Ana Mendietta, Valie Export, ou Lydia Lunch, e a teatralidade pós-conceptual de Cindy Sherman, ou vivencial de Nan Goldin, para uma espécie de nova normalidade, ora comercial (Annie Leibovitz, Ellen von Unwerth, etc.), ora pós-conceptual (Janine Antoni), ora intimista (Sally Mann), ora inquietante (Francesca Woodman, Rineke Dijkstra).

Lydia Lunch, self-portrait


Janine Antoni, 2838, 2010

Francesca Woodman, from the eel serie

Rineke Dijkstra, Bullfighter, Montemor

terça-feira, 3 de março de 2015

Francisco Tropa—reimpressões reduchampianas

Francisco Tropa
Aparelho que viaja à mesma velocidade de uma corrente submarina pré-determinada, 2014.
Tecido, madeira, bronze, papel e vidro. Dimensões variáveis
Cortesia Galeria Quadrado Azul

Um protótipo, o que é?


No fim da caminhada o que é que conta mais? O caminho ou a chegada? O caminho pode ter sido sinuoso, disperso, ataviado, atalhado, simulado, modelado, travestido como se... Pelo contrário, a chegada, a passagem estreita em direção ao nada, não tolera simulações, nem mais dialética.

Salvador Dalí exclamava no seu delírio hospitalar que os génios não deveriam morrer— interrogava então incessantemente os cientistas sobre a imortalidade. Os tubos enfiados pelas narinas acima davam resposta à sua pergunta: até certo ponto, conseguimos prolongar a tua vida recorrendo ao conhecimento humano e à τέχνη. Mas esta extensão in extremis do sendeiro e do tempo da caminhada tem um mesmo e inexorável ponto de chegada.

Um protótipo, o que é? Pode ser a primeira impressão, ou o modelo de algo que vem depois, como a modelação, o conhecimento, de novo a modelação, outra vez o conhecimento, os jogos de linguagem e a nomeação, o ritual, o encapsulamento, o distanciamento, o mistério, sombra, aparição—index.

Desde o momenrto em que os deuses começaram a morrer, que os artistas andam perdidos entre as aporias da lógica, da experimentação e da verdade científica, e a evidência de que o interior e o exterior da certeza sensível permanece incomensurável aos circunstanciais exercícios da razão. Não podendo regressar ao Olimpo, nem conformar-se com a arrogância sempre volúvel das ciências, os artífices da matéria, os desenhadores e os poetas refugiam-se há um bom par de séculos na paródia, na paradoxologia, na deriva onírica e na dislexia contaminante. A manipulação dos pacientes através da propaganda e sedução das imagens e dos cantos tornou-se desde então uma indústria hiperrealista, metódica e especializada—à qual os operadores estéticos são chamados a cooperar enquanto mais uma força laboral, criativa, é certo, mas segmentada pelo mercado. Os artistas resistem a esta cooptação oportunista, e em última instância assassina. Não é fácil, mas alguns conseguem.

Quando um ser vivo adormece na lama e acorda duzentos e cinquenta milhões de anos depois, é um fóssil. Quando uma pedra é recolhida por um feiticeiro que lhe extrai um molde de barro, onde depois deita uma mistura alquímica de metal líquido, quando arrefece, o que é?

Ando a ler um livro fascinante: Art and Agency—an anthropological theory, do já desaparecido Alfred Gell. De algum modo é a minha mais recente bitola —ou tally stick— para medir a autenticidade de uma obra de arte.

Encontrei hoje esta pedagogia na Net, que deixo como um convite à leitura, depois de visitarem os Protótipos de Francisco Tropa.

Gell’s main concepts are agency, index, prototype, artist and recipients. Agency is mediated by indexes, that is material objects which motivate responses, inferences or interpretations. Indexes can stand in a variety of relations with their prototypes, artists and recipients. Prototypes are the objects or persons that indexes represent or stand for, mimetically or non-mimetically, visually or non-visually. Recipients are those who are (or are intended to be) affected by the indexes. Artists are those persons considered to be the immediate cause or author of the existence and properties of the index. They may be the artists of Western art history and theory, but they can also be vehicles for the agency of others. For example, the emperor Augustus was the prototype for the index which is now known as the Prima Porta statue; the people attending a court case in a basilica where one of the many copies of this statue stood, are the recipients; its artist’s technical ability to create the illusion of lifelikeness by suggesting movement, sight and speech fills the public with awe and admiration. Agency is achieved through technical virtuosity. It can enchant the viewer: ‘The technology of enchantment is founded on the enchantment of technology’. But there are many varieties of this technique. Stylistic virtuosity, and in particular the artifice that results in vivid lifelikeness is an instance. Using Gell’s theory to configure the social networks in which art works exert this particular variety of agency is very useful to identify the actors involved, the network of relationships in which the viewer becomes enmeshed, and the effects of agency on the viewer’s behaviour or beliefs. It thus helps to integrate the analysis of living presence response in a much wider range of anthropological and psychological enquiry."

Caroline van Eck, “Gell’s theory of art as agency and living presence response”
Universiteit Leiden


Exposição visitada
Francisco Tropa
Protótipos
Galeria Quadrado Azul, Lisboa
Até 18 de abril, 2015

Index, untitled

Antonio Cerveira Pinto, Index, untitled #1

“...there’s nothing but layers—smaller and smaller...”

(Ibsen, Peer Gynt, 1867)