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domingo, 13 de julho de 2014

Museu de Arte Contemporânea ou do Modernismo?

A corja não mudou.

Museu do Chiado 2.0 ou...

por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

O Museu do Chiado, no dia em que comemorou os 20 anos do seu renascimento, na sequência de uma grande obra de requalificação da autoria do arquiteto Jean-Michel Wilmotte, propiciada pelo devastador Incêndio do Chiado, promoveu uma apresentação sumária, impressionista e burocrática de resultados, a cargo dos seus últimos cinco diretores, na sequência da qual houve um breve mas intenso debate, abruptamente interrompido pelo moderador Sardo, que não é da casa, não consultou o dono da casa, nem procedeu, como é curial fazer-se neste tipo de diálogos, a última rodada de inscrições entre a audiência participante. Talvez, no fundo, tudo o que era relevante já tivesse sido efetivamente dito. Ou talvez o que eu disse, ou o que acertadamente disse Paulo Henriques, antigo diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, e o mais esporádico diretor que o Museu do Chiado alguma vez teve, tivesse atingido mortalmente o próprio cerne da conversa:

— que públicos espera ter no futuro o Museu do Chiado quando finalmente a sua área se estender para o edifício ainda ocupado pela Polícia, quando receber de Serralves o acervo público de obras de arte contemporânea acumuladas de modo quase familiar ao longo das últimas décadas pela antiga direção-geral da ação cultural e pelo ido Instituto de Arte Contemporânea das antigas secretaria de estado e ministério da cultura, quando, finalmente, deixarmos de entrar no quase ridículo Museu Nacional de Arte Contemporânea por uma espécie de portinhola de serviço, e for possível aceder ao mesmo por uma Entrada digna desse nome, pela Rua Capelo, em pleno coração do bairro cultural mais emblemático da capital?

Apesar da amizade que nutro por David Santos, atual diretor do Museu do Chiado, sempre discordei da ideia estapafúrdia de matar o que deve ser um museu enciclopédico do modernismo português e daquele, estrangeiro, que foi dando à costa, para dar curso às ambições medíocres e sem visão de um pequeno curador em pose de descobridor tardio de uma contemporaneidade que ou já não pode alcançar, ou que já não existe, ou que está noutro lugar. Refiro-me obviamente a Pedro Lapa, responsável por ter lançado a mais completa confusão sobre a identidade do Museu do Chiado. Depois da sua passagem, o museu nem é modernista, nem contemporâneo, mas antes um misto de Kunsthall de mangas encolhidas sem a menor credibilidade curatorial, sem público, e de museu modernista cortado ao meio, tolhido naquilo que deveria ser a sua ambição primordial: edificar no centro de gravidade da modernidade portuguesa de finais do século 19 e de quase todo o século 20 um ambicioso, informado, culto e atrativo monumento a essa mesma modernidade: Rafael Bordalo Pinheiro, Eça, Ortigão, Pessoa, Almada, Santa-Rita, Barradas, Leitão de Barros, Villaret, Lopes Graça, Hogan, Joly Braga Santos, Cesariny, O'Neill, Nikias e um nunca mais acabar de génios locais cujo conhecimento, reconhecimento, estudo e exposição e reencenação apenas faria bem aos artistas portugueses de hoje e à escola de arte que felizmente ainda está onde está, como seria o atrator que falta ao Chiado e ao Bairro Alto para que o turismo que por ali entope ruas e ruelas não se limite aos pasteis de nata ou aos shots e à nouvelle cuisine indígena. Basta andar pelo Chiado para que as memórias e os vestígios materiais e simbólicos de um tempo de metamorfose, de crise, de ousadia e de mudança cultural ressoem das paredes e das calçadas e se entranhem nos poros de quem não for totalmente destituído de tempo ou de cultura. Matar esta alma do lugar em nome de curadorias circunstanciais, sem contraditório, autoritárias mas sem auctoritas, confundindo o papel de comissários independentes com burocratas empertigados que fazem das suas passagens pelas secretarias, museus e fundações meros trampolins para carreiras sem substância, é tudo o que o Museu do Chiado 2.0 não precisa!


Pedro Zamith, pintura


David Santos herdou uma situação envenenada e agrada-lhe a ideia, errada, de misturar o âmago natural do Museu do Chiado com volúveis comissariados de arte contemporânea realizados no tempo que corre. E aduz que a designação —Museu Nacional de Arte Contemporânea— e o acervo que entretanto irá receber de Serralves colocam ao Museu do Chiado uma responsabilidade irrecusável, tanto mais que hoje, digo eu, nem o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, nem a trapalhada provinciana de Serralves, nem as instituições parasitárias do Joe Berardo, da EDP ou do BES, inspiram qualquer confiança nos critérios que têm vindo a seguir, ou sequer, na sua continuidade. Ou seja, estou de acordo com David Santos quando afirma que decorre das atribuições do MNAC responsabilidades que mais nenhuma outra instituição portuguesa tem a obrigação ou está em condições de assumir. Até aqui, tudo bem, mas...

Neste momento temos uma série de instituições pomposas de arte contemporânea —CAM, Museu de Serralves, a coleção de Joe Berardo, em Belém e em Castelo Branco, a penhorada Fundação Elipse, BES-Finança e ainda o anunciado museu de arte contemporânea da endividada e rendeira EDP— todas elas competindo entre si, mais de uma evidenciando promiscuidade indecorosa entre interesses privados e ingenuidade ou corrupção pública, todas servindo de porta-giratória a carreiras pessoais sem história, todas sem autonomia, dotadas de orçamentos ridículos, às moscas! Ora bem, perante tanta profusão de arte contemporânea e curadorias supostamente ousadas, que falta faz mais um museu a expor artistas em fraldas e às vezes mal criados, no Chiado? Não seria mais avisado aproveitar a ampliação do museu da Rua Serpa Pinto para, por uma vez, conferir uma marca clara e rigor a uma instituição do estado capaz de fazer a diferença, em vez de andar, como a concorrência, a macaquear sem meios o que se faz (ou fazia...) em Londres, Berlim ou Nova Iorque? Resta ainda dizer a este respeito que há em Lisboa, no Porto e no resto do país um número crescente de galerias de arte, de espaços alternativos e de grupos de artistas e curadores, quase sempre meios nem mecenato que os acuda, que muito gostariam de ver no Estado um facilitador informado e aberto à diversidade criativa, em vez de mais um concorrente, burocrático e ainda por cima arrogante e falido, para o qual milhões de euros vindos dos pagadores de impostos, dos subsídios de Bruxelas ou da dívida pública, são canalizados sem deixar rentabilidade cultural que se veja.

Prevejo que muita da espuma contemporânea especulativa das últimas três décadas desapareça em breve, fruto de um tempo que acaba e de outro, muito diferente, que desponta. Neste sentido, a missão de um Museu Nacional de Arte Contemporânea, na sua ideologia clássica, de arquivo cuidado e estudado de obras de arte que marcaram e marcam a identidade cultural do país, mas também de escola de gosto e lugar de observação e experiência cultural da cidade e do mundo, é imprescindível nesta, como nas décadas futuras

Há seis qualidades que fazem a diferença entre um museu interessante e amado pelo público e um deserto de ideias onde ninguém vai:
  1. o lugar do museu (forte ou fraco)
  2. o edifício do museu (bom ou mau, neutro ou simbólico)
  3. a coleção do museu (rigorosa e coerente ou burocrática e disléxica)
  4. a autonomia do museu (tudo o que continua a não existir entre nós, fruto da inércia burocrática e do populismo eleitoral que temos)
  5. o diretor do museu (bom, mau, inexistente)
  6. a continuidade do museu (um museu que sucessivamente interrompe a sua atividade ou guina de direção como um bússola desnorteada, é um não lugar)
Acredito que o novo diretor do MNAC tem condições e tempo para responder aos desafios acima descritos. O desafio 5 depende exclusivamente dele. Os 1 e 2 são-lhe altamente favoráveis se souber tirar partido do privilégio do lugar expandido que em breve estará à sua disposição. O 3 é um grande desafio para o qual proponho uma hipótese de solução no diagrama que publico mais abaixo. Os desafios 4 e 6 exigem mudanças drásticas e urgentes da parte da administração pública e da gestão política da cultura. Sem autonomia responsável e supervisionada, e sem continuidade, nada funcionará com um mínimo de dignidade.

Voltando ao problema da coleção e do quão contemporâneo pode ser o MNAC, creio que seria necessário considerar o Museu do Chiado como um dos núcleos modernistas do MNAC, a par do Museu Nacional Soares dos Reis, que deveria constituir o segundo núcleo proto-contemporâneo do MNAC. Seguindo esta metodologia de acréscimo de coerência e racionalização de meios e gestão, o lugar da arte contemporânea pós 1946 necessitaria de outros espaços. No Porto esse lugar já existe, chama-se Museu de Serralves e deveria ser um dos futuros núcleos do MNAC. Em Lisboa, o lugar que obviamente espera ser ocupado pelo segundo núcleo de arte contemporânea do MNAC, ao qual seria desejável acrescentar uma Galeria Nacional de Arte Contemporânea, dedicada às tendências mais recentes da contemporaneidade artística em sentido amplo, e não estreito, seria obviamente o Centro Cultural de Belém, edifício pago pelos contribuintes onde está sediada uma fundação suportada em larga medida pelos mesmos contribuintes, a qual inexplicavelmente continua a servir o interesse privado em vez de servir a comunidade. Não deixa de ser caricato que para se entrar no Museu do Chiado seja necessário pagar um bilhete de 4,50€ (ou 5,00€ no MN Soares dos Reis), enquanto a entrada no Museu Berardo é grátis!

Esta visão arquipelágica do MNAC, que deveria incluir ainda um Museu Nacional de Fotografia e do Cinema, é a que, do meu ponto de vista, poderá satisfazer os seis critérios acima descritos e simultaneamente preparar a instituição cultural portuguesa para a austeridade que veio para durar. É possível adaptarmos o sistema invertebrado da museologia pública nacional aos constrangimentos financeiros e fiscais de um estado que tenderá a ser mais pequeno e mais racional. Porém, quanto mais tarde decidirmos, quanto mais complacentes formos para com a pastosa baba burocrática e as situações indecorosas que persistem, mais dolorosas e drásticas terão um dia que ser as inevitáveis emendas do atarracado monstro museológico indígena.

E se alguém pensar que a coisa vai lá mudando apenas de secretário de estado para ministro da cultura, desenganem-se. Tivemos ministros da cultura de sobra e, por outro lado, nenhuma das principais potências culturais do planeta tem ministério da cultura: Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Japão, Áustria, Suíça ou mesmo a Holanda.

Diagrama para uma discussão aberta:

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Conceito Zero

Antonio Cerveira Pinto
No concept, Central Station, 2014
Phenomenologies (painting)

A Luz Zen de António Cerveira Pinto

Por EMANUEL DIMAS DE MELO PIMENTA


Entramos na sala da exposição e há luz.

Trata-se de uma sala quase antiga, quase abandonada, quase envelhecida, quase quieta. Um pouco como somos sempre todos nós.

Directamente sobre as paredes, dezanove quadrados pintados em branco.

São espécies de aberturas para uma outra dimensão temporal.

A patina é a da mão, quase disfarçados movimentos, quase sombra do corpo - aura.

Um outro tempo, outra vida - pois tudo se transforma permanentemente na apoptose.

Os dezanove quadros de António Cerveira Pinto "apagam" o tempo que transformou aquele espaço, aquele edifício. Elaboram o tempo-zero, tempo antes da metamorfose, do envelhecimento, da mutação do metabolismo, da vida.

Restauram a condição zero daquele lugar, antes mesmo de o lugar existir como tal.

Grau zero da escritura.

Condição que nos remete imediatamente a Roland Barthes e especialmente a Albert Camus, agora já não mais como estrangeiro: "O arco se verga, a madeira geme. No auge da tensão, levantará voo, em linha recta, mais directa e mais livre flecha".

Mas, essa ainda não é a obra. É apenas parte dela. Uma das suas dimensões.

Quando o espaço já estava envelhecido, transformado, nesse misterioso início de tudo, ponto-zero, presente eterno de Agostinho, António Cerveira Pinto foi ao lugar e fotografou a luz, numa espécie de processo em retroalimentação: dezanove (foto)grafias, escrituras de luz sobre a luz.

Esquecemo-nos por vezes de que a luz viaja numa única velocidade na qual, em termos físicos, o tempo simplesmente não pode existir.

Portanto, estamos permanentemente mergulhados no não-tempo. Tudo o que nos circunda e nos preenche é a ausência de tempo.

Raios de sol, sombras, janela. A luz foi então transformada num outro tipo de luz, escritura sem tempo, e essa mesma luz foi uma vez mais metamorfoseada, agora revelada em números, abstracção pura, desmaterialização radical, tornada digital e implantada no ciberespaço: espaço numa outra dimensão mental.

Luz na desmaterialização da cultura material.

Tudo mudou novamente.

Na sala, tal como acontece no labiríntico especular ciberespaço, restam as aberturas para uma luz que não mais existe. Tempo-zero. Ideia no processo, não-conteúdo verbal, não-conceito simbólico, estrutura de movimentos, de acção pura.

Pensamento-acção.

O título da peça, datada de 2014, é No concept, Central Station. Mostra que aconteceu - na sua première - na Central Station, em Lisboa, naquele mesmo ano.

Muito do sentido da dimensão ciberespacial - ao contrário do que geralmente se acredita - é revelado pela raiz etimológica nas palavras Gregas kubernân e kubernêtês - respectivamente "governar" e "pilotar".

O espaço que nos governa, que nos orienta, que nos dirige. Estrutura da acção do pensamento.

Parte da obra está no estabelecimento dessa estranha dimensão entre dimensões, qualidade da qualidade.

Entretanto, tudo isso ainda não é a obra na sua totalidade.

Ela apenas o será quando uma nova, enigmática e indeterminada dimensão emerge: a de não se saber com precisão acerca dessas múltiplas dimensões. Um tal saber implica tempo, que se agregue ao tempo-zero, e que seja descoberta.

Mais importante, não se sabe a priori da dimensão ciberespacial.

Sabe-se de tudo isso um pouco por acaso, pelo risco, por um lance de dados, através da reflexão, da contemplação, da busca. E quando se sabe, procura-se ainda mais. Então, lâmina a lâmina, dimensão a dimensão, a obra é revelada.

É essa misteriosa condição da descoberta, imprevisível e indeterminada, que dá corpo imaterial à obra.

Assim, No concept, Central Station de António Cerveira Pinto é de natureza matemática e profundamente religiosa.

A palavra religião possui duas raízes, ou referências, etimológicas. A primeira, mais antiga, é a expressão latina religare, intensamente usada especialmente durante o Império Romano, há cerca de dois mil anos. A segunda é relegere, palavra igualmente latina, mas usada nos mosteiros medievais, particularmente durante o período dos Grandes Sistemas, já no final do universo medieval.

Enquanto que a primeira expressão latina designa o acto de "religar", de ligar novamente, isto é, de re-estabelecer uma associação que se tinha perdido, uma memória, uma ideia - pois o significado de um signo é outro signo de natureza diferente - e, portanto, está intimamente relacionada à ideia de descobrimento, de revelação; relegere implica trabalho, método, elaboração, participação, atenção.

Ambas as expressões aspiram ao sagrado - que é a condição expressa pela poesia, isto é, aspiração ao tempo livre, como quando entramos num espaço e nele mergulhamos em silenciosa contemplação.

Assim, a obra de António Cerveira Pinto é não apenas profundamente religiosa, exigindo uma permanente acção à descoberta, mas também é essencialmente política, incorporando nas suas origens a essência participativa do "governo", da "orientação".

São sentidos ocultos, não-verbais, presentes como processo, metabolismo.

E aqui, naturalmente, a ideia de governo não acontece como forma partidária, exclusiva, ditatorial, sectária - como um clube de protegidos ou uma religião no seu sentido institucional - mas sim enquanto governo íntimo, pessoal, livre, inclusivo, anárquico.

Não podemos nos esquecer de que política nasce com a polis e é, assim, na sua mais profunda essência, a livre interacção entre pessoas, entre ideias na aspiração a novas ideias, num contínuo mergulho pela descoberta de cada um de nós e de todos.

Essa experiência política e religiosa traz à mente uma afirmação de Chên-ching K'ê-wên, que viveu entre 1024 e 1102: "Naquilo que diz respeito ao Zen, a experiência é tudo em todos. Qualquer coisa que não esteja baseada na experiência está fora do Zen. O estudo do Zen, portanto, deve crescer com a própria vida; e a iluminação deve ser profundamente penetrante".

2014

terça-feira, 8 de julho de 2014

Museu do Chiado ocupado numa noite de verão

Ocupação do Museu do Chiado, Lisboa (4-5/6/2014)
Foto Facebook

 

Quem se mete com meninos acorda molhado

Por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Portugal
PIB per capita (2013) 15.842,2 euros
Remunerações do trabalho per capita (2013): 7.641,6 euros
Salário médio líquido (2013): 984 euros/mês; 13.776 euros/ano
Salário médio anual dos trabalhadores temporários (2013): 6.984 euros/ano
Salário mínimo (2014): 485,0/mês; 6.790 euros/ano
Pensão média da Segurança Social (2012): 4.135,1 euros/ano
Dinheiro gasto pelo museu na produção da obra e exposição de Rui Mourão (incluindo a publicação da sua tese de mestrado com design de luxo): 8.000 euros.

A ação promovida pelo artivista Rui Mourão durante a inauguração da exposição para que foi convidado pelo Museu do Chiado (vídeo), uma entidade 100% pública, dirigida por David Santos, que para esta instituição transitou após concurso, depois de vários anos à frente do Museu do Neorrealismo, em Vila Franca de Xira, é uma típica manifestação daquilo a que poderíamos chamar a política rasca dos meninos e meninas desmioladas e mimadas de uma democracia falida. Não deixa de ser sintomático que a ação realizada nas costas do museu e da comissária da mesma, tenha contado com a presença antecipada dos média no que evidentemente foi uma conspiração e quebra grave de contrato. Os média relatam ou fazem parte da ação?

Comportamento rasca #1: não se morde a mão de quem nos dá de comer, e se para o artivista Rui Mourão oito mil euros por uma única tarefa é poucochinho, deveria ter recusado o convite, pois haveria certamente algumas centenas de artistas desejosos de ocupar o seu lugar. Rui Mourão traíu a confiança de um jovem diretor de museu, sério e que goza de grande apreço entre a geração de artistas que sucedeu àquela que durante mais de vinte anos ocupou todos os poros institucionais da cultura contemporânea indígena, bloquenado enquanto pôde a geração que David Santos tem vindo a defender pela sua ação conhecedora e ponderada. Do ponto de vista legal, e sobretudo da decência, Rui Mourão rompeu unilateralmente um contrato e insultou a instituição que o acolheu. Se eu fosse diretor do Museu do Chiado a sua exposição teria sido imediatamente encerrada. Creio mesmo que o responsável governamental pela instituição —Jorge Barreto Xavier— não terá outra alternativa se não seguir este procedimento, sob pena de abrir caminho à transformação da arte portuguesa em mais um sindicato de artistas funcionários semi-públicos mal criados.

Comportamento rasca #2: o artivista Rui Mourão acha que o estado deve alimentá-lo a ostras e caviar, em nome da cultura, e dos direitos de dois milhões de pobres que têm o direito de ver gratuitamente as suas ocupações de museus porque, diz ele, é um contribuinte líquido. É? E já agora, quem pagará a gratuitidade dos museus se os artistas que supostamente devem criar a riqueza de que os museus se alimentam são os primeiros mandriões que fazem da caça ao orçamento, e não da arte, a sua verdadeira especialidade? Em que se distingue o artivista Rui Mourão do resto da corja rendeira, devorista e partidocrata que condena? Não foi a caça ao tesouro orçamental sobre endividado que nos trouxe até aqui?

Comportamento rasca #3: o artivista Rui Mourão poderia ter lançado a sua diatribe no público CCB, que continua a servir escandalosamente o concubinato cultural sórdido do tempo do 'socialista' José Sócrates (sem incorrer em quebra de contrato ou de confiança), ou no Centro Comercial Colombo que é da mesma Sonae que condena por financiar à sua maneira a sala onde precisamente montou o seu estendal, ou ainda no BES Arte & Finança, por razões óbvias de oportunidade. Poderia, por exemplo, dirigir uma simples carta ao 'socialista' António Costa perguntando-lhe quanto pagou ou tenciona pagar, com o dinheiro que os contribuintes de Lisboa não têm, pela coleção de design e moda do MUDE, adquirida a um único colecionador. Mas não, preferiu atacar uma instituição sem orçamento, indefesa, apunhalando pelas costas a boa fé do seu diretor. Foi mais fácil, não foi? Mas agora temos um problema novo nos museus e centros de arte do país: vai ser necessário redigir um contrato-tipo para todas as exposições que vierem depois deste ato de descarado oportunismo e carreirismo.

Rui Mourão reclama a existência de um ministro da cultura, e até ensaiou a turma ensonada que o acompanhou na sua rasquíssima performance a repetir em coro este choro tipicamente infantil e próprio de meninos e meninas mimadas para quem pensar não costuma ocupar os seus tempos livres. Saberá o artivista traiçoeiro e a turma de sindicalistas culturais que acampou no museu que os países culturalmente mais produtivos e marcantes deste planeta —Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Suíça, Áustria e Japão— não têm ministérios da cultura? Então ocupa-se um museu público para exigir um ministro da cultura? Quem vos encomendou o sermão?!

Por fim, saberão os campistas do Museu do Chiado que os cortes na cultura têm ocorrido na maioria dos países europeus com tanta ou mais virulência que em Portugal? E se sabem, ou se o artivista Rui Mourão sabe, pois até escreveu um livro, não seria razoável pensarmos todos numa discussão mais informada e mais educada sobre o assunto?

Uma leitura a propósito...

We should allow failing arts organizations to die.
A debate that began (for me) nine months ago, finally gets real at #aftacon.
By Devon Smith on Jun 15 - M

Agree or disagree: we should let arts organizations that don’t adapt die.

Arts organizations are already dying. In Detroit, in New York City, in the UK. From operas to art galleries. This is no longer an urban versus rural debate. A nonprofit versus for profit debate. A “one discipline is dying” but “others are inexplicably thriving” debate.

This is a simple acknowledgement that the industry represented by the people and organizations in this room, is in decline. And I think that not only should we allow it, we should encourage it.

Ocupação do Museu do Chiado, Lisboa (4-5/6/2014)
Foto Facebook

A arte sujeita à condição pós-moderna tornou-se um complexo industrial, de serviços e de consumo de massas — o que muda quase tudo!

Nos últimos quarenta anos, ou seja desde a década de 1970, que as sociedades industriais em fase de terciarização acelerada se deparam com um problema social novo: o desemprego estrutural causado, nomeadamente, pela extraordinário aumento da produtividade das tecnologias e métodos de gestão. Este problema agravou-se a partir de meados dos anos oitenta do século passado, com a emergência de grandes países, sobretudo em termos demográficos, como a China, a Índia, a Nigéria e o Brasil, entre outros. Quase tudo, incluindo o design e a arte, começaram a ser produzidos nestas novas geografias a custos incomparavelmente mais baixos. Qual foi então a resposta americana e europeia a este desafio? Basta ler o premonitório livro The End of Work (1995), de Jeremy Rifkin, para o sabermos. Na realidade, os poderes políticos resolveram apostar em duas cartas: educação e formação profissional permanentes e financiamento do consumo. As distorções desta economia artificial acumularam-se paulatinamente até formarem uma bolha especulativa monumental. Desde 2006 que a bolha começou a rebentar. Já vamos em oito anos de colapso económico, financeiro, social e cultural. Porque as causas não são as que a espuma populista dos partidos da nomenclatura fazem crer aos cidadãos para lhes arrancar votos (cada vez menos, aliás), a obrigação dos intelectuais, dos cientistas e dos artistas, pela exigência livremente assumida das suas missões, é olhar para as dificuldades de uma maneira diferente, desinteressada, sem o que a metamorfose em curso será ainda mais dolorosa, e porventura mortal.

Da convocatória publicada no sítio do Museu do Chiado
Inauguração da exposição OS NOSSOS SONHOS NÃO CABEM NAS VOSSAS URNAS no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, sexta-feira, 19h.

O projeto que Rui Mourão expõe no MNAC - MC (comissariado por Emília Tavares), consiste num conjunto de videoinstalação + livro + performance.

Na inauguração será lançado o livro "Ensaio de Artivismo (vídeo e performance)" escrito por Rui Mourão (com apresentação de David Santos e um texto da curadora Emília Tavares).

A performance a realizar na inauguração contará com a colaboração do Colectivo Negativo.

"O título – OS NOSSOS SONHOS NÃO CABEM NAS VOSSAS URNAS – é uma apropriação de um slogan de protesto, repetido em cartazes levantados na Acampada do Rossio em 2011, movimento que direta ou indiretamente marcou o percurso de muitos dos atores e impulsionadores das 10 performances artivistas ocorridas em Lisboa entre 2008 e 2013 reunidas nesta vídeoinstalação, juntamente com outras tantas entrevistas realizadas e gravadas com protagonistas das ações abordadas e que relatam, na primeira pessoa, os respetivos posicionamentos e interpretações. Fruto de um trabalho de investigação de campo, acompanhando e filmando ativistas nas suas ações, esta vídeoinstalação permite esboçar uma etnografia de práticas e agentes de contestação ao nível dos chamados novos e novíssimos movimentos sociais e, simultaneamente, percecionar as analogias existentes entre as estratégias de dissensão no âmbito do protesto político no espaço público e as dissensões formais do campo artístico. São essas estratégias – artivistas – vindas do exterior do sistema institucional, que apostando na criatividade, na emoção, na comunicação e no inesperado, permitem a qualquer pessoa motivada tornar-se num ator político a ocupar a esfera pública."

Rui Mourão, in "Ensaio de Artivismo (vídeo e performance)". Lisboa: MNAC-Museu do Chiado, 2014 (no prelo).

"Rui Mourão reafirma uma postura artística que é ela também de resistência ao senso comum e da aptidão da arte contemporânea para ser um processo de compromisso social. Sobre o resultado desse processo ainda muito haverá a avaliar, mas para já, as dissensões que este trabalho expõe deixam como possibilidade a resiliência aos ditames que o sistema das artes espera dos artistas, “que operem críticas construtivas do sistema mas não ameacem as instituições públicas, as classes hierárquicas e outros legados do liberalismo burguês; que intervenham na cultura mas não pareçam agressivos ou seriamente preparados para lutar pela igualdade política.”(Lipovetsky, Gilles, Serroy, Jean, L’Esthétisation du Monde: vivre à l’âge du capitalisme artiste. Paris: Gallimard, 2013, p. 435)"

Emília Tavares, in "Ensaio de Artivismo (vídeo e performance)". Lisboa: MNAC-Museu do Chiado, 2014 (no prelo).

A exposição estará patente até dia 28 de setembro, 2014. Terça a domingo, 10 - 18h.

Ver link do museu

Ocupação do Museu do Chiado, Lisboa (4-5/6/2014)
Foto Facebook

Post scriptum

A quebra de confiança protagonizada pelo artivista Rui Mourão, além de favorecer objetivamente aqueles que arruinaram o país e asfixiaram a disseminação da cultura portuguesa no mundo (tal a insistência em tentar demonstrar que apenas tínhamos dois artistas medíocres e oportunistas: Sarmento e Cabrita Reis), é o exemplo de uma ação inqualificável de promoção pessoal, sobretudo para consumo externo, numa tentativa desesperada de furar o bloqueio referido. Confundir exibicionismo e oportunismo mediático a qualquer preço com arte é um caminho hoje muito trilhado, típico de uma cultura propagandística que corre atrás da notícia e mais recentemente dos LIKES. No entanto, à medida que o tempo dos média se torna circular, e uma nova instância do eterno retorno regressa, a decantação recomeça: GARBAGE IN/ GARBAGE OUT.


Atualização: 10/7/2014, 16:04 WET

domingo, 6 de julho de 2014

Nota sobre Pires Vieira

Pires Vieira
Sem título, 1975
madeira, pedra, corda, 300 x 300 cm
Col. Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea,  Porto

Uma cicatriz na abstração portuguesa

Por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Cronologia: Jackson Pollock (1942, 1943); Gutaï (1956); Giulio Paolini (1960), arte minimal (Richard Wollheim, 1965); Arte Povera (Germano Celant, 1967), Supports/Surfaces (1966, 1969 - 1972), Pires Vieira (1969)

A minha divagação de ontem na Fundação Carmona e Costa sobre a obra, em contexto, de Victor Pires Vieira, pareceu talvez passar ao lado das peças expostas na fundação e no Museu do Chiado, na medida em que me escudei nos textos de Adelaide Ginga para não me pronunciar diretamente sobre qualquer das peças salvo a 'escultura' no chão, com sulipas, granito e corda, sem título, de 1975 — um dos mais fortes vínculos na obra de Pires Vieira à tendência 'estruturalista' da vanguarda artística francesa pós-Maio de 68.

Na realidade, o que fiz foi situar a biografia e génese convulsiva das 'estruturas', ou elementos da representação e posição da arte, numa dificuldade lusitana e europeia mais geral, que descrevi como um isolamento ideológico e cultural da tendência para a abstração na arte moderna nos países europeus em geral, e nos da Contra-Reforma, nomeadamente Portugal e Espanha, em particular. Paris, depois de ter dado origem à arte moderna republicana, quedou-se num sincretismo próprio do entroncamento cultural que foi durante todo o século 19 e quase metade do século 20. O caso do Brasil, que deve ser visto com minúcia, liberta-se de alguns dos constrangimentos europeus e católicos pela especificidade frequentemente animista da reinterpretação do paganismo católico português que o sincretismo religioso brasileiro permitiu durante séculos de colonialismo, confluência étnica e babélia —o famoso 'concretismo'. Mas o Portugal moderno e contemporâneo, entalado entre o realismo das aldeias e dos subúrbios urbanos, dos presépios polícromos, dos paramentos e andores das igrejas apostólicas romanas, da tralha decorativa importada pelos palácios a que uma tradição barroca sem estrutura, nem forma, mas sempre superficial, obediente e tosca deu legitimidade e academia, a que se viria somar, em perfeita continuidade cultural, o realismo ideológico autoritário do fascismo e do estalinismo, deixou apenas uma nesga de oportunidade à 'abstração' libertadora da arte moderna e contemporânea que verdadeiramente foi transformando a arte numa praxis autónoma — sem censura, nem dono.

Neste sentido, a 'arte abstrata' portuguesa, sempre acossada pelos dogmas, da Santíssima Trindade, ou da degenerescência leninista-estalinista, submersa pela importância enfatuada e imposta do nosso neo-realismo e do nosso surrealismo, pindéricos, mas autoritários, viu-se quase sempre compungida a explicar-se no campo retórico que não era seu e que deveria, aliás, começar por rejeitar. As cicatrizes desta prisão cultural aparecem na obra de Pires Vieira, como são claramente visíveis em todos os outros abstratos portugueses: Vieira da Silva, Nadir, Lanhas, Ângelo, Batarda, Casimiro, João Vieira, Jorge Martins, Menez, Vítor Pomar, Calhau, Palolo, José Carvalho, José Conduto, Croft ou Casqueiro. De certo modo, o que ontem disse a propósito da obra de Pires Vieira, foi um preâmbulo à análise desta cicatriz.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

No concept, Central Station

Antonio Cerveira Pinto
No concept, Central Station, #12, 2014
Digital photography
46 x 69 cm

Memento mori: white paintings

by ANTONIO CERVEIRA PINTO

Statement for a future buyer

This art piece contains 19 digital photographs plus 19 phenomenologies (paintings). Each of these 38 elements is an autonomous entity of a logical family.

It is the nature of this artwork that its site specific paintings, that will be in place for less than one month, as if they were white flowers, are for sale as well as the photographs that belong to cyberspace in the first place. What would an art lover, a collector, a museum have in return for those ephemeral paintings? Nothing. Nothing that could replace those nineteen paintings once they disappear. As a compensation for this loss I would write an essay for the art lover only, where I will say things about these paintings and the room where they were born and died. 

No concept, Central Station responds to an unexpected challenge: to show one or more artworks in what used to be a post office floor. I was offered a small 5x2.4 meters empty room and two walls to display whatever I wanted to show.

Antonio Cerveira Pinto
No concept, Central Station, #4, 2014
Digital photography
46 x 69 cm

This transitional space is a metaphor in itself. The building is changing, as art is changing too. Once upon a time there were people living and working in that room. They left but let aura everywhere. I could see it, and I began wandering about ghosts and memory imprints like the many stains on the walls in what used to be a Post Office Central Station.

I took photos at the site and I looked at them in my home-studio over and over again. Then I realized that showing those pictures inside the ex-office room, and over the walls that have been for years the architectural environment for so many, would be nice but too literary. Photography to me is only an instrumental tool. Not and end in itself. I'm a relational artist that prefer both complexity and immediacy to narrative. I appreciate pictures as double-bind challenges, black-boxes, silence, emptiness. Assuming art as a way to a prolonged sensitive and logic experience is not popular, but that's the kind of play I like.

I have choosen 19 photographs from the many I shot. I posted them on a Tumblr page called art as no idea. Then I did 19 white paintings in situ, exactly with the same size of the photographs. Each one have a subtle presence, reacting to natural light coming from the north or reflected by south oriented facades from other buildings, hopefully surviving the dim light of the corridors. The Sunlight has to cross two dusty windows to enter the room. For those that once lived and worked in that room those white auratic ghosts would probably evoke memories, as if these whites shapes were time capsules. For those uneducated visitors that will eventually come to the pop-up show, these nineteenth white rectangles would probably look like unfinished business. For those acquainted with conceptual art, these nineteenth wall inscriptions, that I also call phenomenologies, will possibly help to reignite old and new discussions.

Closing this brief explanation of the artwork I made for Central Station I must highlight the fact that I find the decision of publishing the site-specific photographs on a digital cloud —as part of the installation— a kind of post-contemporary split probably common today but that still needs to be fully incorporated in the art process.

Exhibition: Mostra '14
10-17 July, 2014
Opening: 9 July, 6 pm
Central Station, Pr Dom Luís I, Lisboa


Antonio Cerveira Pinto
No concept, Central Station, #10, 2014
Digital photography
46 x 69 cm

Online photographs: art as no idea

[Post no blogue CHICOTE]

No concept, Central Station— nas palavras do autor, a nuvem é composta por 38 elementos: 19 pinturas in situ + 19 fotografias digitais online. Cada um dos elementos é uma entidade autónoma, mas faz parte de uma só família lógica.

No concept, Central Station é a resposta a um desafio improvável: exibir uma ou mais obras de arte no que fora em tempos um pequeno gabinete de trabalho de uma central de correios. A sala tem cerca de 10mq e as duas paredes do corredor que lhe dá acesso medem de largo, respetivamente, 347 e 609 cm.

A sala tem uma janela virada a Norte, da qual se veem traseiras, empenas e fachadas de outros edifícios, algumas das quais, pela sua proximidade, refletem a luz do sul. Imagino, escreve o autor, que esta paisagem tenha ficado gravada na memória de todos os que ali trabalharam. E continua: fotografei a sala exaustivamente, tendo posteriormente escolhido dezanove imagens sintomáticas daquele lugar agora vazio. Estas imagens estão disponíveis apenas numa página Tumblr. Na sala e nas duas paredes de corredor, entretanto, pintei dezanove retângulos com as mesmas medidas das fotografias: 46 x 69 cm. Estes retângulos de cor branca são uma espécie de aura das imagens, dos quadros e das fotografias que um dia potencialmente cobriram parcialmente as paredes daquele ex-gabinete. Estes quadros brancos, que assinalam simultaneamente a ausência e a presença de algo que já não existe, são uma fenomenologia daquele lugar.

Por fim, afirma António Cerveira Pinto, embora eu possa descrever a obra desta maneira, o importante mesmo é a experiência da mesma, seja o que isto possa querer dizer a cada um dos que a virem e experimentarem.