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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Caverna comun

Contas de contar, contas de arte


por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO
 
Lebombo Bone (ou Osso do Lubombo - ca. 35 000 anos (1)
“La monnaie, – quelle que soit la définition qu’on adopte – c’est une valeur étalon, c’est aussi une valeur d’usage qui n’est pas fungible, qui est permanente, transmissible, qui peut être l’objet de transactions et d’usages sans être détériorée, mais qui peut être le moyen de se procurer d’autres valeurs fungibles, transitoires, des jouissances, des prestations. Or le talisman et sa possession ont, quant à nous, très tôt, sans doute dès les sociétés les plus primitives, joué ce rôle d’objets également convoités par tous, et dont la possession conférait à leur détenteur un pouvoir qui devint aisément un pouvoir d’achat” — in Les origines de la notion de monnaie, Marcel Mauss (1914).
As contas de casca de ovo de avestruz, ou realizadas com pequenos búzios (cauri), pérolas, botões, vidro, etc., o gado bovino que se deslocava (e ainda desloca) às feiras como principal moeda de troca, o sal, o ouro e outros metais e ligas metálicas, desempenharam desde o início da humanidade (Homo sapiens sapiens) —em alguns casos até aos dias de hoje— a função de moedas-mercadorias. Mas se o gado, o sal e os metais podiam ser trocados pelo seu imediato valor de uso, dependendo o valor de troca destas moedas-mercadorias da respectiva origem e qualidades intrínsecas (nomeadamente genéticas e sanitárias), já no que respeita aos colares de contas a apreciação derivava e deriva necessariamente de uma dimensão sobretudo simbólica, reforçada por certos atributos tais como, a raridade, a originalidade, a estranheza, a cor e a forma — natural ou derivada de uma especial, qualificada e autorizada incisão humana, por sua vez rodeada de uma aura de mistério, magia e sedução.
“Schurtz remarque d’ailleurs très finement, après Kubary qui avait fait l’observation dans les Iles Palaos, que l’argent ne fut pas primitivement employé à l’acquisition des moyens de consommation, mais à l’acquisition de choses de luxe, et à celle de l’autorité sur les hommes. Le pouvoir d’achat de la monnaie primitive c’est avant tout, selon nous, le prestige que le talisman confère à celui qui le possède et qui s’en sert pour commander aux autres.” — idem.
Rai stones, as maiores moedas conhecidas, em uso na ilha de Yap, Micronésia, há mais de 500 anos.

Parece pois ter existido um sincretismo inicial onde a colecção de objectos decorativos, a téchnê, e a memória das trocas entre humanos confluíram para uma espécie de narrativa metafísica inaugural das relações entre tudo o que é percebido, sentido e vivido. Daí que as perfurações e os cortes, incisões e talhes (1) que acompanham os primeiros desenhos humanos —em conchas e perónios de babuínos, e antes e depois desta exteriorização, certamente, sobre o próprio corpo humano— pareçam ter servido ao mesmo tempo para consagrar rituais de dádiva e troca simbólica, para apreender o mistério imanente a uma súbita intensidade da actividade cognitiva relacional, acompanhada da emergência surpreendente de uma nova subjectividade concreta (estética), bem como para estabelecer a primeira pragmática da representação algorítmica da contabilidade do tempo, das trocas e das acções. Mas o que poderá ter sido decisivo neste transe evolutivo da humanidade, que do ponto de vista da teoria de arte, continua incompleta, é a aliança congénita entre religião (i.e. a política), conhecimento e representação, sendo a representação sobretudo um sistema de pontes técnico-simbólicas destinadas a iluminar os objectos da atenção selectiva, e a transfigurar depois o conhecimento crescente dos mesmos num regime evolutivo de representação a que chamamos linguagem: desenho, pintura, escrita, numerologia (unária, binária, digital-decimal, etc.)

Medieval Exchequer Tallies, ou Talhas de Fuste, Alpes suíços (2)
“Mais n’y a-t-il pas là un sentiment encore très vivace chez nous ? Et la vraie foi que nous nourrissons vis-à-vis de l’or et de toutes les valeurs qui découlent de son estimation, n’est-elle pas en grande partie la confiance que nous avons dans son pouvoir ? L’essence de la foi en la valeur de l’or ne réside-t-elle pas dans la croyance que nous pourrons obtenir, grâce à lui, de nos contemporains les prestations – en nature ou en services – que l’état de marché nous permettra d’exiger ?” — ibidem.
Jared Diamond identifica no seu livro Guns, Germs and Steel — The fates of Human Societies, uma mudança fundamental na evolução humana, ocorrida há uns 50 mil anos atrás, a que chamou Great Leap Forward, e que caracteriza deste modo:
“Human history at last took off around 50,000 years ago, at the time of what I have termed our Great Leap Forward. The earliest definite signs of that leap come from East African sites with standardized stone tools and the first preserved jewelry (ostrich-shell beads). Similar developments soon appear in the Near East and in southeastern Europe, then (some 40,000 years ago) in southwestern Europe, where abundant artifacts are associated with fully modern skeletons of people termed Cro-Magnons. Thereafter, the garbage preserved at archaeological sites rapidly becomes more and more interesting and leaves no doubts that we are dealing with biologically and behaviorally modern humans.”
Sem entrarmos na controvérsia das datas, que segundo alguns autores poderiam fazer recuar o Great Leap Forward do Homo sapiens sapiens, dos 50 mil anos considerados por Diamond, para 80 mil, 75 mil e 70 mil anos, se aceitarmos as datações da Caverna de Blombos para os primeiros utensílios de osso, contas de casca de ovo de avestruz e um fragmento de argila com uma banda de cruzes ali encontrados, parece consensual identificar como traços distintivos do Homem moderno a concomitância das seguintes características: produção de utensílios e ferramentas de caça e trabalho estandardizados (bifaces, pontas e agulhas de osso), mais precisos, polidos e diversificados que os do Homem antigo; colecção, manipulação e criação de fios de contas decorativos, eventualmente associados a rituais de troca simbólica (Potltach); invenção e inscrição de signos abstractos sobre superfícies externas, no que pode ser considerado o percurso inicial e porventura iniciático da representação (imagem, escrita e cálculo.)

Artefactos encontrados na Caverna de Blombos

A primeira conclusão inequívoca a deduzir dos achados é que o primeiro que encontramos, já no Homem antigo do Paleolítico Inferior (2,6 milhões a 100 mil anos atrás), antes de quaisquer representações ou transformações simbólicas, antes de quaisquer algoritmos, e antes da mais primitiva forma de dinheiro, é a invenção e o uso controlado do fogo, há 1,4 milhões de anos, em África, e rituais funerários no Paleolítico Médio, há cerca de 300 mil anos. Ou seja, a téchnê e a percepção transcendental da morte surgem já entre os hominídeos mais evoluídos. Só depois, muito depois —no seio dos Homo sapiens sapiens, nomeadamente daqueles que acabaram por ser os nossos directos antepassados— parecem ter surgido as primeiras tentativas de representação dos valores cognitivos guardados na memória tribal, e sua posterior reificação numa escala de valores.

Quem desde sempre lascou a pedra (dos primeiros bifaces e pontas de lança até aos diamantes lapidados à venda nas lojas de Antuérpia), e depois moldou a argila, furou e poliu as cascas de ovo de avestruz, os búzios e as pérolas, foram pois hominídeos artistas e artistas humanos. Este é certamente um grande enigma, na medida em que registamos uma evolução lógica nos artefactos ao longo dos tempos, mas não uma linha de continuidade entre proto-humanos e humanos modernos. Os hominídeos e grande parte dos Homo sapiens desapareceram para sempre. A raça humana actual, por sua vez, parece descender de uma única Homo sapiens recente (Homo sapiens sapiens): a Eva mitocondrial, nascida há 200 mil anos. Do outro lado desta descontinuidade genética encontra-se, pois, uma evolução razoavelmente lógica dos artefactos! Parece assim haver uma linha contínua do tempo que diz respeito à téchnê, ao mistério, à magia e ao fascínio estético, distinta da descontinuidade genética que separa o pré-humano do humano.

A maioria dos fundadores da téchnê não deixou, por conseguinte, descendência, mas a sua obra preenche mais de 95% da história da pedra lascada. Estes hominídeos evoluídos e Homo sapiens desaparecidos são possivelmente os mesmos que sabiam criar e manter o fogo, usando uma habilidade (e um secretismo?) que desde cedo os distinguiu de entre os membros da família alargada que começou por constituir as primeiras sociedades de pré-humanos. Como passou então a informação destes artistas pré-humanos para os descendentes coerentes da Eva mitocondrial? E, por outro lado, que diferença fundamental existe entre os artefactos dos hominídeos e Homo sapiens desaparecidos, e aqueles que começaram a ser produzidos em Blombos e no Lubombo?

A resposta talvez esteja na emergência dos processos de reificação das relações sociais e estabelecimento de hierarquias sociais, nomeadamente em resultado duma acumulação primitiva de valor! A avaliação, representação e fixação destas novas medições espaciais do tempo e da propriedade, enquanto trabalho e conhecimento acumulados, deve ter introduzido uma determinação inteiramente nova e revolucionária na praxis demiúrgica da téchnê. Talvez tenha começado por esta altura a diferenciação fundadora —e a tensão jamais resolvida—entre entre religião, conhecimento e arte. A religião fixa sobretudo o sentimento e o horror da perda, enquanto a téchnê (i.e. a arte) redime tal frustração através de uma reafirmação surpreendente e inesperada do próprio princípio criativo que a morte insiste em reduzir a nada. O conhecimento, em suma, aparece para devir o que tem sido desde então: uma pragmática do ilusório que avança lentamente por entre as sombras infinitas de uma caverna infinita.

Copyright © 2010 by António Cerveira Pinto

NOTAS
  1. Um dos mais antigos testemunhos de representação simbólica (35 mil anos?) Primeira régua de cálculo, ou um talismã críptico-religioso e artístico? Descrição:
    “A small piece of the fibula of a baboon, marked with 29 clearly defined notches, may rank as the oldest mathematical artefact known. Discovered in the early seventies during an excavation of the Border Cave in the Lebombo Mountains between South Africa and Swaziland, the bone has been dated to approximately 35,000 B.C. In a description of the bone, Peter Beaumont, an archaeologist who has done extensive work on Border Cave, has noted that the 7.7 cm long bone resembles calendar sticks still in use today by Bushmen clans in Namibia.” – from The oldest mathematical artefact by Bogoshi, Naidoo, and Webb, in What’s the Oldest Mathematical Artifact?
    Cf. com outro objecto muito semelhante, conhecido por Ishango bone.
  2. Esta espécie de varões de medida, ou réguas de valor —tally stick/ split tally (EN), bâton de taille/ bâton de comptage/ bâton de taille partagé (FR), talha de fuste (PT)— serviram em Inglaterra, em França, em Portugal-Brasil, etc., desde a Idade Média até ao século 19 e mais tarde, como instrumentos na regulação de contratos entre pessoas analfabetas, ou entre o Estado e/ou empresas e pessoas que não sabiam ler, nem contar, substituindo-se às moedas convencionais, quando não abundavam, ou quando os contratos envolviam quantias grandes, ou implicavam diferimentos que exigiam formas de registo fiáveis para ambas as partes contratuais. Sobre o significado de talha de fuste:

    # talha de fuste = vara com mossas
    # pelas mossas de pau se mediam os impostos, as multas, as execuções e os alqueires de trigo
    # mossas de pau (modo de contar dos rústicos que não sabiam nem ler nem contar)
    # talho, talha, talhe (da carne, na madeira, no osso, etc.)
    # talho: mossa ou corte dado no pau para marcar a conta — in Diccionario da Lingua Portugueza. Por António de Morais Silva (natural do Rio de Janeiro), Lisboa 1831.

    Sobre o significado de talhe:
    s.m. Estatura e feição do corpo: mulher de talhe elevado.
    A feição de qualquer objeto.
    Modo de cortar uma roupa; corte: o talhe do terno.
    O mesmo que talho.

    Sobre o significado de talha:
    s.f. Ação de talhar, de cortar; entalhe, gravura.
    Porção de metal que se tira com o buril.
    Mão, cartada (no jogo da banca).
    Corda que se amarra à cana do leme para governar melhor nas tempestades.
    Aparelho constituído por um jogo de roldanas de diâmetros diferentes e destinado a levantar grandes pesos; moitão, cadernal.
    Obra de talha, obra de relevo, escultura em madeira ou marfim.

    Sobre o significado de talho:
    s.m. Ato ou efeito de talhar ou cortar; talhamento, talha.
    Corte produzido por fio ou gume: deu um talho no dedo.
    Modo de cortar ou talhar uma roupa; talhe: alfaiate de bom talho.
    Feitio, feição, talhe: letra de bom talho.
    Corte de ramos das árvores; desbaste, poda.
    Corte e divisão da carne para a venda.
    Cepo sobre o qual se retalha a carne.
    Açougue.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Joana Vasconcelos - Marylin Inox

Joana Vasconcelos, a pós-vanguarda no feminino
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO


Joana Vasconcelos—Marylin, Museu Berardo, CCB ©Foto: Filipa Figueira, 2010.
“Marilyn”, da artista portuguesa Joana Vasconcelos (n. 1971), foi leiloada hoje na casa Christie’s por 505.250 libras (573.964 euros). No leilão de arte do pós-guerra e contemporânea, onde se encontram obras de Gilbert & George, Andy Warhol ou Roy Lichtenstein, a base de licitação da peça, um par de sapatos gigantes realizados com panelas e tampas, era de 100 mil a 150 mil libras (115 mil a 172 mil euros). — Público online.

Lembro-me de ter visto pela primeira vez um dos sapatos de “Marylin”, feito com tachos inox, numa feira comercial dedicada ao imobiliário e soluções para arquitectura, jardins e intervenção urbana. O grande sapato reluzente de ponta alta surgiu-me de chofre, sem passar sequer pela minha cabeça que haveria por ali escultura, e muito menos uma obra de Joana Vasconcelos. Mas era do que se tratava. Ali estava, irresistível a quem rodeava o enorme sapato e por ali ficava alguns minutos sorrindo e voltando para trás e para a frente, tentando resolver o puzzle. Parecia um sapato de diamantes. Mas não era. Era, sim, um objecto gigante feito com mais de uma centena de tachos inox soldados uns aos outros. Disse para comigo: isto deve ser mais uma partida da Joana. E era!


Joana Vasconcelos foi durante muito tempo, e porventura ainda será, uma artista menos considerada entre as vanguardas de sucedâneo que abundavam na arte portuguesa do final do século passado. Recordo ainda, e agora posso partilhar o momento publicamente, das pressões que em 1999 sofri para não inclui-la na Bienal da Maia que então comissariei na ilusão de poder transformar aquele evento suburbano numa realização periódica com dimensão internacional. Não vou entrar em pormenores, mas no mínimo, dizia-se que a personagem era insistente e trucidante, e a obra, no mínimo, Kitsch (como se este último epíteto pudesse então ser um mau presságio, ou uma nota negativa!)


Eu procurava vislumbrar quais os valores mais promissores da jovem arte portuguesa (e chinesa de Xangai!) naquele final do trágico século 20. Fui abrangente e extensivo, insistindo numa espécie de pedagogia inclusiva e aberta, num terreno que sabia estar já muito minado por jogos de poder, de controlo e de exclusão competitiva. A lista de participantes foi quase exaustiva no que então me pareceram ser hipóteses em aberto que mereciam conviver numa mesma exposição e dar lugar à ideia de que existia uma nova geração de artistas dignos da atenção pública, e da atenção das galerias de arte, dos museus e das revistas da especialidade, mas também das instituições públicas. 

Os anos 90 tiveram pois duas exposições —uma a começar a década, e outra a fechá-la— onde tive a oportunidade de sugerir um arejamento da percepção portuguesa do seu potencial plástico. Nomes como Miguel Palma, Carlos Vidal, João Onofre, João Tabarra, Augusto Alves da Silva, Filipa César, Alexandre Estrela, Francisco Tropa, Jorge Queiroz, Noé Sendas, Rui Toscano, Rui Calçada Bastos e Joana Vasconcelos, entre outros e outras, foram escolhas assumidas para a BM99, quando ainda pesava (ou ainda pesa) uma espécie de monopólio dos oportunistas Anos 80 sobre os centros nevrálgicos do poder das artes em Portugal. O tempo deu razão às escolhas que então fiz e que outros observadores atentos de então também partilhavam, mais ou menos em surdina!


O que porventura distingue a obra de Joana Vasconcelos, e incomoda muita gente, é a sua flagrante frontalidade plástica, franqueza feminina e genuíno espírito do lugar. Tal como Paula Rego, Joana Vasconcelos sabe lidar com o barro da espécie, sem maternalismo, nem sub-capas finas de conceptualismo requentado, nem “liricoidismo” literário (a expressão feliz é de Joaquim Manuel Magalhães) de nenhuma espécie. A bilros o que é de bilros, e que não se confundam com kilts!


E no entanto nada há de atávico ou provinciano na obra de Joana Vasconcelos, como obviamente há, por exemplo, na pintura de Graça Morais. O delírio humorístico e arguto das suas confecções e do seu bricolage é profundamente urbano e sofisticado naquela acepção genuinamente Pop que impregna os percursos de Louise Bourgeois, Paula Rego, Andy Warhol, Jeff Koons, Paul McCarthy e tantos outros e outras. Há uma truculência genial nos temas, nas escalas, nos materiais e nas anedotas da sua extravagante casa de bonecas neurasténicas (ver esta reportagem). E é precisamente esta franqueza narrativa e construtiva que falta em muitos outros artistas cujo potencial não consegue ultrapassar o limiar perigoso da verdadeira liberdade criativa. Joana não é, de facto, nem uma artista epigonal, nem um sucedâneo sem cafeína e politicamente correcto —”para inglês ver”— da última capa da Artforum (ainda existe?) Apetece-me voltar a dar um passeio pelo seu trabalho.

Copyright © 2010 by António Cerveira Pinto

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Coleccionar búzios

Nassarius kraussianus shell beads from the 75,000 year old levels at Blombos Cave - a) aperture made with bone tool; b) flattened facets produced by use wear, probably by rubbing against other beads, string or gut; c) ochre traces inside shell, possibly transferred from body of wearer d) shell beads external view.
Image created by Chris Henshilwood & Francesco d'Errico (in Wikipedia)

Da arte ao dinheiro

por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Descobri uma coisa interessante num livro excepcional que estou a ler neste momento (Guns, Germs and Steel, de Jared Diamond): os antepassados hominídeos do "homem moderno" andaram por cá há 5 ou mesmo 9 milhões de anos. O "homem moderno", nosso antepassado directo, que poderá ter origem na célebre africana Eva mitocondrial, iniciou a sua longa caminhada há tão só 150 mil anos, e o que do ponto de vista antropológico lhe confere a humanidade plena e o título de Homo sapiens evoluído é —para além de enterrar os mortos e cuidar dos doentes, e fabricar instrumentos normalizados simples ou compostos— o facto de fabricar jóias, i.e. a arte! As primeiras bijouteries que se conhecem são contas feitas com casca de ovo de avestruz, descobertas nas costas Sul e Leste de África. A arte começa pois por ser o resultado privilegiado de uma téchnê, mas ao mesmo tempo —ou pouco tempo depois— transforma-se numa moeda de troca. As contas feitas de casca de ovo de avestruz, de conchas do mar, de carapaça de tartaruga, etc, começando talvez por desempenhar uma função simbólica nos rituais matrimoniais, transformaram-se subsequentemente em objectos-valor, em símbolos e testemunhos de alianças, trocas e comércio — shell-money. Este é aliás o ponto por onde podemos começar a entender a natureza híbrida, simbólica e especulativa da arte, bem como das suas relações com a riqueza, o poder e o amor. Um shot explosivo!

As contas feitas com búzios, encontradas no interior escavado da Caverna de Blombos, na África do Sul, no início deste século, terão qualquer coisa como 75 mil anos. Desde 2002 que vêm sendo estudadas e são consideradas os mais antigos testemunhos de objectos manipulados pelo Homo sapiens com propósitos simbólicos, decorativos e possivelmente económicos (1). Nesta mesma escavação foi encontrado um pedaço de argila com uma banda gravada de losangos cuja idade estimada, 70 mil anos, faz dela a mais antiga representação simbólica que se conhece.

Caverna de Chauvet — pinturas com ~30 mil anos

Os exemplares mais antigos das famosas pinturas e gravuras europeias de Lascaux e Altamira datam de há cerca de 18 mil anos, enquanto o surpreendente catálogo de pinturas e gravuras de animais mansos e agressivos descobertas em 1994 na Caverna de Chauvet (Sul de França), cujas datações ainda decorrem debaixo das controvérsias habituais, aponta para idades mais longínquas, próximas dos 32 mil anos.

A distância temporal entre, por um lado, as primeiras representações simbólicas —abstractas e lineares, mas formando já padrões regulares—, alojadas no mesmo sítio das primeiras formas decorativas —de mera apropriação/colecção/uso— africanas —, encontradas na Caverna de Blombos, e, por outro, as figurações fantásticas do final do Paleolítico Superior é muito grande: pelo menos, 10 mil anos!

Os primitivos hominídeos que evoluíram em direcção ao Homo sapiens terão aparecido à face da Terra há 2,5 ou 2,6 milhões de anos. E é no longo período que decorreu entre 500 mil e 200 mil anos antes da nossa era que o Homo sapiens adquiriu, muito lentamente, um conjunto de habilidades e faculdades mentais capazes de o levar finalmente a iniciar o domínio das estratégias e técnicas da representação simbólica. O salto epistemológico e estético, que Jared Diamonds chama Great Leap Forward, terá ocorrido há uns 50, 60 ou 75 mil anos atrás. Em 1986 investigadores da Universidade da Califórnia defenderam, na sequência de um longo e amplo estudo de arqueologia genética baseado no rastreio do DNA mitocondrial, que a humanidade actual, toda ela, derivaria, não de uma diversidade de famílias de Homo sapiens, mas de apenas uma, localizada em África, e com cerca de 200 mil anos. A chamada Eva mitocondrial será assim a provável mãe primordial de todos nós. Toda a arte conhecida derivará pois, de acordo com esta hipótese científica, das práticas avançadas e porventura tardias desta linhagem africana, de que os artefactos encontrados na caverna de Blombos seriam as primeiras evidências concretas.

Se tudo isto é verdade, podemos talvez reiterar cinco tópicos básicos para a compreensão do fenómeno da arte:
  1. Os primeiros hominídeos, ramo especialmente dotado derivado de uma espécie de macaco (de onde saíram também os antepassados dos gorilas actuais e os antepassados de duas variantes de chimpanzé), nasceram em África à cerca de 7 milhões de anos (entre 5 e 9 milhões de anos, para ser mais preciso); estão muito longe de serem humanos propriamente ditos — não se lhes conhecendo faculdades de representação simbólica, nem de imaginação criativa;
  2. No grupo dos proto-humanos —hominídeos que se endireitaram e viram aumentar a sua capacidade craniana— encontram-se os Australopithecus (3,9 milhões de anos), os Homo habilis (1,5 a 2 milhões de anos), e os Homo erectus (1,8 milhões de anos a 300 mil anos); apesar de usarem instrumentos rudimentares de pedra lascada, não são ainda humanos propriamente ditos — não se lhes conhecendo faculdades de representação simbólica, nem de imaginação criativa;
  3. O chamado "homem moderno" —um Homo sapiens evoluído, com mais de 50 mil anos— caracteriza-se por saber cuidar dos seus doentes, desenvolver rituais funerários, construir ferramentas multi-partes, desenvolver comportamentos de observação sistemática, coleccionar conchas e outros objectos menos duráveis, e ainda por ter sabido especializar capacidades comunicativas e de representação simbólica com resultados evidentes nos vestígios que deixou —nomeadamente as contas de colar de casca de ovo de avestruz (75 000A) e os pedaços de argila gravada encontradas na caverna de Blombos (70 000A) , ou as extraordinárias pinturas da Caverna de Chauvet (32 oooA);
  4. A capacidade de formular representações simbólicas do entendimento e das percepções, e a imaginação criativa em geral, são traços culturais decisivos que separam o homem inteligente e estético dos seus antepassados proto-humanos —sendo mais provável que uma tal evolução tenha resultado de interacções sociais e novos condicionalismos culturais, do que da lenta metamorfose corporal e cerebral da espécie;
  5. Os colares de contas de casca de avestruz, de búzios, de pérolas, de sementes, de vidro, de bauxite, etc., acompanham a história da humanidade desde as suas primeira manifestações artísticas conhecidas até aos dias de hoje —desempenhando simultaneamente funções decorativas, simbólicas e propriamente monetárias, por uma espécie de investimento transversal e multi modal de valor, e de capacidade de atracção universal.
O ponto talvez crucial das observações aqui reunidas que o recente leilão espectacular do L’Homme Qui Marche I de Alberto Giacometti me despertou é essa persistente relação íntima entre o valor material e o valor simbólico associado aos objectos decorativos e simbólicos —frutos de uma clara technê (τέχνη) humana. Não é o trabalho rotineiro acumulado que também existe concentrado na forma de uma obra de arte (seja esta uma "arte menor", puramente decorativa, ou efémera, seja esta uma "arte maior", ou "fina", complexa, polissémica ou alegórica), que potencia o "valor incalculável", verdadeiramente especulativo — no sentido da estrita imprevisibilidade — que a mesma pode atingir em contextos agonísticos especiais, como seja o de um leilão. Há muito mais! Mas o que é? Onde está e o que é esse atractor —certamente no âmago da definição teórica e da génese da obra de arte— que assegura simultaneamente a sua duração e potencia o seu impacto irresistível e universal?
Talvez o segredo esteja no nascimento de um tempo novo, empregue no desenvolvimento de uma parte inexplorada do cérebro durante o longo e duro período em que os hominídeos e proto-humanos deambularam pelo planeta, caçando porventura em tribo, mas sem ter tempo para desenvolver relações sociais complexas e estratagemas de sobrevivência mais sofisticados, à altura da evolução morfológica do corpo (oponibilidade do polegar, deslocação vertical, especialização da visão, crescimento da cavidade cerebral) e da mente (com maior disponibilidade para exercitar algumas das zonas até então adormecidas por uma dedicação exclusiva da vida às tarefas da sobrevivência e da defesa).

Chamemos a este tempo novo, tempo da representação, tempo da criatividade, tempo do pensamento lateral, tempo da preguiça!

Será por este carácter excepcional do emprego do tempo que a fama e as prerrogativas especiais da arte chegaram até onde chegaram? Estarão na cogitação e distracção criativas as causas difíceis de descrever, mas nem por isso menos óbvias, e menos eficientes, da excepcionalidade da arte e do seu valor? Será esta originalidade espacial-temporal que explica o valor de refúgio espiritual, mas também material da arte? Não sei, mas gostaria de saber.
Copyright © 2010 by António Cerveira Pinto


NOTAS
  1. Contas de conchas de Nassarius gibbosulus encontradas na Grotte des Pigeons (Taforalt Cave, Marrocos) foram entretanto (2007) datadas de há 82 mil anos — PNAS.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A expectativa do valor

Alberto Giacometti — L'homme qui marche - I
©Photo: EMMANUEL DUNAND/AFP/Getty Images
De onde vem o preço de uma obra de arte?
by ANTÓNIO CERVEIRA PINTO
A life-size bronze sculpture of a man by Alberto Giacometti has been sold at auction in London for the world record price of £65,001,250.
It took just eight minutes for bidders to reach the hammer price after L'Homme Qui Marche I opened at £12m at Sotheby's auction house.
Sotheby's said it was the most expensive work ever sold at auction. (BBC News, 05-02-2010)
O leilão que teve lugar na Sotheby's londrina no dia 3 de Fevereiro de 2010, em plena crise mundial dos mercados financeiros, os quais assistiriam no dia seguinte a um afundamento global (1), por efeito dos temores causados pelos excessos de endividamento de pequenos-médios países como a Grécia, Portugal e Espanha (depois do que já se sabia da Islândia, da Irlanda e de vários outros países bálticos e do Leste europeu), não deixa de ser surpreendente. Quando centenas de milhar de empresas em todo o mundo fecham as suas portas, atirando para o desemprego milhões de pessoas, quando até se avolumam dia a dia as dúvidas sobre a capacidade de países como o Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Islândia, Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha, e um longo etc., assumirem as suas dívidas soberanas, numa nocturna sala de leilões em Londres, L'Homme Qui Marche I, do escultor suíço Alberto Giacometti é arrebatado pela astronómica quantia de 74,1 milhões de euros. Nesse dia os mercados europeus, à excepção de Lisboa e Madrid, tinham fechado em ligeira alta. Mas na manhã seguinte, a fúria deflacionista da recessão mundial fez-se de novo ouvir!

O Capitalismo global tornou-se um imenso casino de apostas, onde a obtenção de ganhos fáceis cresce, nas cada vez mais complexas e sofisticadas plataformas electrónicas da especulação financeira, muito para além da riqueza real produzida no mundo. O que comanda os lances deste jogo infernal são as expectativas — expectativas do consumo, expectativas de sobre- exploração do trabalho, expectativas de investimento, expectativas de lucro fácil. Na base deste imenso jogo especulativo em torno da expectativa, o mundo Ocidental, ou antes o Capitalismo ocidental e tardio, produziu uma tecnosfera onde as pessoas envelhecem sem trabalho nem protecção, onde as máquinas inteligentes remetem o trabalho humano para um limbo de extinção a prazo, e onde a medida do crescimento é autofágica: quanto mais se consome, mais se investe, quanto mais se investe, mais se delapidam os recursos finitos à disposição e mais desperdício programado é induzido nesta caduca forma de economia.

Mas não é tudo! O mais extraordinário mesmo é o inimaginável nível de endividamento a que a Globalização capitalista conduziu as empresas, os governos e as pessoas. A economia que agora entrou em derrocada é uma economia do futuro convencionada, no sentido em que, ao longo dos últimos vinte anos, esta espécie de economia virtual tem vindo a inchar sobre uma enorme pirâmide Ponzi chamada precisamente mercado de futuros. A sustentabilidade fictícia deste futurismo financeiro assentou única e exclusivamente num sistema de segurança de créditos a que se deu o nome de derivados financeiros (ou Derivatives), mas que se viria a revelar, como confessou Warren Buffett, uma verdadeira Arma Financeira de Destruição Maciça ("financial weapons of mass destruction"). Numa economia global onde a especulação se foi sobrepondo rapidamente ao mundo da produção, este endividamento sistémico deu lugar ao aparecimento de um casino global orientado para a especulação desenfreada com os próprios mecanismos inicialmente engendrados como formas sofisticadas de segurar os riscos do endividamento! O resultado foi este: o mercado dos derivados financeiros tem hoje um valor nocional (2) de mais de 680 biliões de dólares, enquanto o PIB mundial não vai além dos 61 biliões (3). Ou seja, a pirâmide de contratos especulativos que supostamente seguram a economia mundial —o valor financeiro dos bancos, das empresas, dos fundos de pensões e investimento, das dívidas soberanas e do bem estar das famílias e dos indivíduos— traduz um potencial de risco de colapso financeiro dez vezes superior ao PIB do planeta (4). Se todos os contratos de derivados financeiros ruíssem em cascata (o que obviamente nunca sucederá) precisaríamos de mais de dez anos para reparar os estragos. No entanto, ainda que o colapso dos derivados financeiros seja parcial e gradual, o resultado de fundo será provavelmente o mesmo: 7, 10 ou 12 anos de vacas magras e muito sofrimento para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Com foi possível então que uma esquálida figura humana fundida em bronze por um artista Contemporâneo europeu em 1961, que não chegou a satisfazer uma encomenda do senhor David Rockefeller para o conjunto de esculturas públicas da Chase Manhattan Plaza, acabasse por ser vendida a um comprador desconhecido na véspera de mais um afundamento grave das bolsas europeias e mundiais, por mais do dobro do custo inicialmente previsto da Casa da Música do Porto, ou por pouco menos do que o valor da escandalosa derrapagem dos custos de construção deste mesmo edifício assinado por Rem Koolhaas? As obras de arte parecem às vezes gozar de uma propriedade a que os guias mais antigos dos nossos museus chamam "valor incalculável"...

Mas que valor é este? De onde vem? Como pode subir até alturas tão vertiginosas? Deixaremos estas interrogações para um próximo escrito.

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NOTAS
  1. Bolsa de Lisboa afunda com PSI20 a cair 4,5%
    A bolsa de Lisboa seguia hoje, quinta-feira, em forte queda, com o principal índice, o PSI 20, a cair perto de 4,5 por cento. O sector da banca é o que está a ser mais penalizado.Depois de ter aberto em baixa de 0,23 por cento, o PSI 20 seguia às 09:51h a cair 3,59 por cento, com os receios sobre a degradação das contas públicas a reflectir-se no mercado bolsista.Cerca das 11:00h, o PSI 20 desvalorizou 4,49 por cento para 7.481,30 pontos, no pior desempenho desde Novembro de 2008.  — in JN online.

    World markets plunge on European debt fears

    Stock markets in Portugal, Spain and Greece led a sharp global retreat for the second day running Thursday as investors fretted over their governments' ability to get a grip on their borrowings. The euro plunged towards $1.37, hitting its lowest since May. — in Yahoo! News.

    Stock markets plunge over Europe debt fears

    European and American stock markets plunged yesterday as investors took fright over the difficulties in debt-ridden countries such as Greece and Portugal and fears mounted over the health of the world’s biggest economy.There were concerns that Greece may not meet its tough budget plans as workers started the first in a wave of strikes, prompting worries that Spain, Portugal and the Irish Republic may also struggle to cut their soaring debts. In a sign of the scale of the problems, a gauge of the perceived credit risk of Western European nations overtook that of the most stable US companies for the first time. (Times Online, 05-02-2010)
  2. Sobre os derivados financeiros ler este artigo da Wikipedia.
  3. Sobre o PIB mundial ler este artigo da Wikipedia.
  4. Sobre a crise financeira sistémica e suas consequências ler este artigo da Wikipedia.