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domingo, 9 de março de 2008

Arte e Política

Paula Rego — Uivando, 1994

Praxis e corrupção
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

I

Um dos principais espinhos de uma abordagem das relações entre arte e política deriva da complexidade crescente de ambos os termos da relação.

A arte tornou-se um universo distante, especulativo (leia-se corrupto) e complexo. A política tornou-se um universo distante, especulativo (leia-se corrupto) e complexo.

No domínio artístico a imperceptibilidade da arte, faz com que a mesma só consiga ver-se quando previamente emoldurada por uma retórica ostensiva da mediação, e sobretudo quando a sua visibilidade rompe o contínuo mediático através da emergência espectacular de uma qualquer instanciação mercantil especulativa.

Vejamos alguns exemplos e contra-exemplos recentes e da casa.

29-02-2008. “Um quadro de Paula Rego, a pintura “The Egyptian Cats”, foi vendido ontem à noite, em Lisboa, por 280 mil euros, o que constitui um novo valor recorde nacional em leilões de obras da autora.
Os trabalhos da pintora Paula Rego continuam a mostrar a maior cotação nos mercados internacionais e agora também no mercado nacional com a venda de ontem à noite, em Lisboa, da pintura “The Egyptian Cats”, por 280 mil euros. — RTP.

27-02-2008. Um quadro da artista portuguesa Paula Rego foi hoje vendido em leilão em Londres por mais de 740 mil euros, representando um novo recorde, disse à agência Lusa fonte da leiloeira Sotheby’s.

“O quadro foi vendido por 740.599 euros (558.800 libras), o que é um novo recorde mundial para a artista”, afirmou um porta-voz da Sotheby’s.

O quadro vendido hoje na capital britânica foi “Baying” (Uivando, em português), uma tela pintada a pastel datada de 1994 e avaliada inicialmente entre entre 350 mil e 500 mil libras (464 mil e 663 mil euros). — Expresso.

01-06-2007 – 16h00 Lusa. “Um quadro de Paula Rego foi vendido em leilão ontem à noite, em Londres, por 560 mil euros, o valor mais alto alguma vez pago por uma obra da pintora, anunciou hoje a leiloeira Christie’s.” — Público.

25-06-2005. “Um quadro de Paula Rego, Target (Alvo), um dos mais famosos da série da Mulher-Cão, acaba de ser vendido, em Londres, no leilão de Verão da Sotheby’s, por mais de meio milhão de euros, estabelecendo um nove recorde na cotação da pintora no mercado mundial de arte. Além desta obra, duas pinturas de Vieira da Silva e uma de Graça Morais integravam o lote de 388 peças, cujo conjunto foi vendido por 30 milhões de euros.” — Diário de Notícias.

Há alguns anos atrás, o comprador-mor de obras para a colecção de arte contemporânea da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, resolvera desconsiderar esta artista vendendo a única obra então no acervo da dita Fundação, com o argumento intempestivo de que não gostava da obra de Paula Rego, que a considerava uma artista secundária e outros mimos do género. O comissário, entretanto caído em desgraça e desaparecido, estava convencido que o grande génio da arte portuguesa do último quartel do século passado era um tal Rui Chaves, tendo por esse motivo (e seguramente pela amizade que os unia) comprado umas dezenas de obras, entre esculturas e desenhos. O mesmo fez com outros artistas da época, hoje, como então (para olhos mais atentos e experientes) completamente irrelevantes.

Entre os valores muito promovidos da genialidade pós-moderna lusitana estavam dois artistas muito activos na sua própria auto-promoção, presentes em todas as exposições nacionais relevantes dos últimos vinte anos e ainda nalgumas das mais prestigiadas exposições internacionais: Documenta, Bienal de Veneza e Bienal de São Paulo, entre outras.

No entanto, passado todo este tempo, e apesar de continuarem a caminhar em bicos de pés, atropelando colegas e gerações inteiras de artistas mais velhos e mais jovens, personagens como Julião Sarmento, ou Pedro Cabrita Reis, ocupam lugares modestíssimos nos leilões da Sotheby’s e da Christie’s. O máximo que uma obra de Sarmento conseguiu numa leiloeira foram 75 mil euros, e as obras de Pedro Cabrita Reis levadas a leilão, nomeadamente por galerias que o expuseram, têm tido resultados muito decepcionantes, pois ficam invariavelmente sem comprador. A venda por 30 mil euros de uma obra sua na primeira iniciativa de uma nova casa leiloeira lisboeta, ficou-se pelo valor mínimo da licitação (“noblesse oblige”…)

Esta incursão pelo domínio duro do mercado serve para ajudar-nos a estabelecer uma primeira clarificação: não defendemos confundir o poder do mercado com os poderes políticos domésticos.

O primeiro, projecta efectivamente os “seus” artistas para o pódio da visibilidade prolongada, da reflexão disciplinar e da consagração cultural e económica, em extensões geoestratégicas coerentes com a influência efectiva dos mercados. Todos os estudos até hoje realizados mostram a íntima relação entre o poder económico e geoestratégico de países como os Estados Unidos, a Alemanha e o próprio Reino Unido, e o protagonismo dos artistas que crescem sob sua protecção. A evolução recente dos preços e da visibilidade dos artistas chineses e indianos só vem confirmar esta regra do Capitalismo global.

O segundo, pelo contrário, é a principal fonte do provincianismo cultural e da desigualdade de oportunidades entre os potenciais candidatos a uma carreira artística de sucesso. Dormir com o poder não gera boa arte, mas pode ajudar, sobretudo nos países periféricos, a criar do nada embustes de toda a espécie.

II

Há porém uma questão bem mais funda e interessante nas relações entre arte e poder nesta época terminal do Capitalismo: saber se a arte pode ou não regressar à Realidade.

A arte Ocidental do século 20 plasmou-se, no essencial, como uma tendência para a abstracção. As tendências realistas foram sendo paulatinamente subjugadas pelo império da desfiguração neurótica e da análise formal crítica. Houve razões fortes para que tal acontecesse, mas o certo e triste é que a segmentação analítica sistemática da produção e da recepção estéticas acabaria por redundar numa bifurcação fatal: por um lado, as artes derivaram para uma estética contínua da propaganda e da produção-e-reprodução industrial; por outro, no laboratório da experimentação vanguardista, foi-se tornando incompreensível e inapreensível fora dos jogos micrológicos da contextualização receptiva, cuja consistência analítica foi perdendo força à medida que a ilusão do progresso se foi metamorfoseando numa ideologia do cinismo cultural, e a própria “abstracção” da arte se tornou o timbre por excelência da sua reificação mercantil. O “valor da arte” é, em primeiro lugar, um valor especulativo de refúgio para as grandes fortunas. Ou seja, esconde-se nos paraísos fiscais da pirataria mundial que hoje conspira para arruinar a humanidade em nome da hipostasiação irracional e criminosa dos activos financeiros e da imensa economia virtual de rapina que, no preciso momento em que vos falo, está a abalar a solidez de um número crescente de economias em todo o planeta. Incluindo a nossa!

Num certo sentido temos que regressar rapidamente à Realidade!

O processo de criação artística tem que ser de novo e radicalmente repensado.
Na minha opinião, os museus, hoje na sua quase esmagadora maioria falidos, ou sequestrados pelos poderes fácticos e pelos próprios protagonistas da instrumentalização especulativa criminosa dos valores culturais da humanidade, têm que passar por uma mudança drástica de objectivos. No quadro das emergências várias que actualmente atravessam a realidade humana, o museu de que precisamos deve metamorfosear-se em direcção à constituição de redes sociais de criatividade e representação simbólica efectiva da realidade.


NOTA: este texto foi escrito para a mesa-redonda “Arte e Política: perspectivas contemporâneas”, promovida pelo Museu do Neorealismo em 9 de Março de 2008 e moderada pelo seu director David Santos, com Miguel von Hafe Pérez e Nuno Faria.

Copyright © 2008 by António Cerveira Pinto

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

The End of Technology

Bill Vorn - Hysterical Machines/ robotic sculptures (2006)

Knowledge-intensive based art and the end of technology
by ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

I
For over a decade I have dedicated myself to wondering about the relationship between art, knowledge and new technology, observing and analysing the respective problems and virtues. We could say, generally speaking, that the appearance of the internet and its fast cultural dissemination on a global scale, marks the end of a certain way of cultural creation and our way of seeing it, as well as the end of certain rituals of reception, consumption and aesthetic exchange.

Pop Art was, it could be said, a delayed awareness of a phenomenon which both preceded and over took it; mass culture of a technological order. It was more Eastman´s Kodak, Orson Welles´ radio broadcast, the cyclopic cinema of Hollywood, the cars and motorways of Henry Ford which defined the era. A culture of permanent, aesthetic mobility, rather than a crisis in Fine Art has best characterised so-called “contemporary culture “ over the last 80 years.

It was this logic – of the masses and democratisation – which the advent of both internet and globalisation nudged to a higher level, even more reproductive than what Walter Benjamin warned of in 1936, except that this time it was sustained by a more unexpected promise; intellectual, social and aesthetic tribalism, measured against individual control, and the social exchange of new communicative technologies and interactive representation. By 1984, communication and “art in the age of mechanical reproduction” as identified for the first time by Walter Benjamin was, above all, a broadcasting phenomenon; that is, broadcasting to a wide variety of receptors; books, magazines, radio, cinema, television and live shows.

Without the invention and trivialisation of the personal computer which, throughout the 1980s, and principally during the 1990s, opened up the first cracks in the technological paradigm which had dominated western systems of representation and symbolism since the publication of the Gutenberg Bible (1450-55), we would still be subject to the same paradigms of cognitive and aesthetic reception from 500 years ago. Suddenly, an electronic machine allows us, for the first time, to write, draw, document, reproduce and play in an environment of virtual, electronic representations, maintained by an invisible system of logarithms and digital programming.

Unlike direct or analogical registrations of the signs and symbols of hardware or software, we access more and more interfaces of digital mediation, with the idea of translating these registrations into crypto logical and electromagnetic realities, in mazes of ever-increasing complexity, until current technological metaphysics are set, as impenetrable founder of the new and unconquerable complex of human inferiority.

As from 1994, there was a second technological revolution; computers began to communicate among themselves, establishing local and global networks (internet, intranet, extranet), sustained by agreements of data transmission; increasingly fast, over greater distance, with richer content, simple and formatted texts, images, videos, voices and a wide variety of things. Computers, cables of optical fibre or copper, transmitters, airwaves, satellites, wireless networks, Global Positioning System (GPS) etc, which converge and keep converging in a sort of worldwide intelligent digital duplication (genetic), both interactive and in real time. However, if on the one hand these duplications are destined for more natural, more intuitive and ultimately more democratic uses, which would open up greater economic potential; on the other hand, the implications of the conceptual, linguistic, technological, scientific and cultural dimensions of this speed up.



II
Whilst we were involved in these questions, the new century began to force us to think about an aspect which, until then, had not really been considered by our culture, and was thus unexpected. Namely, the fact that the energy responsible for our civilisation is already well over half used. In other words, we have used half the economically viable oil on the planet in 100 years, and will have to give up on this significant energy source which has been accumulated by nature over millions of years.

Quite probably, between 2030 and 2050, the current energy regime on which all scientific- technology rests, will suffer an unprecedented transfiguration, since the present rush for so-called alternative energies shows that something is dramatically worrying us. Imagine if we had to vacate this planet in two or three hundred years´ time. Or if this dante-esque possibility (…) was substituted for something less horrific, but equally apocalyptic; like a return to the standards of living and productivity of the pre-industrial era; that is, a period without cars, trains, aeroplanes, freezers, off-the-peg clothes, mobile phones, iPods, computers, electricity, with cities reduced to toxic scrap metal heaps, inhospitable and overrun by criminals. Sounds unbelievable? On the contrary; highly likely!

We have only been excessively using coal, oil and natural gas for just under 200 years. Only since the middle of the 19^th Century, with the use of iron and steel and, above all, the proliferation of machines powered by steam alongside the explosion of electricity, has it been possible to move from a period of almost two thousand years in which average annual income “per capita” in western Europe, went from 576 American dollars in year one of our calendar , to 1,572 American dollars, in 1850, to the twentieth century in which income increased ten-fold.

Even though it is poorly distributed, the new wealth obtained for abundant energy sources, which are cheap and yet lucrative, for machines and increasingly sophisticated and productive technology, plus human labour, has meant that average annual income “per capita” reached in 2003 in Europe 19,912 U.S dollars. That´s 12.6 times more than in 1500. Imagine what it would be like to live in a post-coal era, knowing these facts, with income 20 times less than current rates.

Today, when a country, continent or the whole world stops growing for two consecutive quarters, “recession” is officially declared, panic in the media ensues and everything seems to be heading towards collapse; companies go under, unemployment increases, as do suicides and crime. Imagine if we reverted to a period in which systematic growth was not the norm, and that the norm was not merely economic stagnation either, but an unstoppable decline in production and income.

This possibility, which is not so remote, would have an immediate impact upon our perception of the value of art, not to mention its inevitable worsening in technological terms. Well before we arrive at the point of the implosion of civilization, we would experience intense and frequent indications that the paradigm which regulates out lives and culture was inexorably nearing its end. The wars which drag on in the Middle East ( Iraque, Afganistan, Palestine, The Lebanon) and in Africa ( Kenya, Chade, The Central African Republic, Nigeria etc) are the result of conflict which tend to multiply and not diminish, and involve strategic resources like oil, natural gas, cereals and water.

In 2003, the world consumed around 80 million barrels of crude oil per day. The U.S consumed 25% of this, two thirds of this was used by the transport sector. The current U.S crisis is on the path to unsustainable debt, the result of over-dependence on carbon energies (particularly oil and gas) and the exportation of a large part of its productive capacity to third party countries, with cheaper labour and production costs. Because of the inevitable and negative effects of this debt, the U.S runs the risk of losing its status and heading for a dangerous decline.

What effects could such a negative evolution have on the high levels of technological and cultural performance which in the last 50 years have been the main models of creation, production, circulation and artistic consumption? What would happen if companies the size of, say, Google were swallowed up by one of the financial storms which increasingly affect the U.S? What would happen to the worldwide production of microprocessors if there were a natural or military catastrophe on Formosa for example, due to the result of a non-acceptance by the U.S of the reunification of China?

What would happen in Europe and other continents, with vital relations with the U.S both as suppliers or consumers , when the U.S´ irreversible decline was an undeniable fact? If this happened, how would our unconscious dependence on economic , scientific and technological well-being evolve? The current world recession, which will last all through 2008 and 2009, will teach us many facts about the immediate future.

The ability for technological renewal upon which we so critically depend, seems to be seriously under threat. It is thought that it will occur at the exact moment when it is no longer possible to replace our new computers, our cars, iPods and mobiles, for newer, more powerful equipment. How long will my car last? How long can I keep my laptop working? What will follow on from the digital world which is currently maintained by millions of servers the world over? Was it not there where we deposited almost all that we had, from economics to lovers´ chat?

[This is a summary of a longer text originally writte in Portuguese for Parq magazine]

Translation:

Copyright © 2008 by António Cerveira Pinto

O fim da tecnologia

Bill Vorn - Hysterical Machines (robotic sculptures), 2006

Arte de base-cognitiva e o fim da tecnologia
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

I

Há mais de uma década que me dedico a passear no interior das relações entre arte, conhecimento e novas tecnologias, observando e analisando os respectivos problemas e virtualidades. Podemos dizer, grosso modo, que o aparecimento da Internet e a sua rápida disseminação cultural à escala planetária marca o fim de uma certa maneira de fazer e ver a criação cultural, bem como o fim de certos rituais na recepção, consumo e partilha estéticas. O aspecto mais notório destas recentes práticas culturais é a sua quase extrema dependência da tecnologia e em particular dos computadores. Mas se uma crise energética sem precedentes tornasse a renovação destas tecnologias uma quimera, que sucederia à tecnoarte e a tudo o que fomos digitalizando nos últimos 25 anos?

A Pop Art foi, por assim dizer, a tomada de consciência tardia de um fenómeno que a precedeu e vastamente ultrapassou: a cultura de massas de índole tecnológica. Terão pois sido a banal Kodak do senhor Eastman, o relato radiofónico de Orson Welles, o cinema ciclópico de Hollywood, o automóvel privado e as autoestradas de Henry Ford e, em geral, a cultura da mobilidade estética permanente, mais do que a crise das Belas Artes, que melhor caracterizaram a chamada “cultura contemporânea” ao longo dos últimos 80 anos. Foi esta lógica de massificação e democratização que o advento simultâneo da Internet e da Globalização veio potenciar e empurrar para um novo patamar, ainda mais reprodutivo do que o anunciado por Walter Benjamin em 1936, só que desta vez sustentado por uma promessa inesperada: a de um inusitado tribalismo intelectual, social e estético, mediado pelo controlo individual e a partilha social das novas tecnologias de comunicação e representação interactivas.

Até 1984 a comunicação e a “arte na época da sua reprodutibilidade técnica” (Walter Benjamin), eram sobretudo fenómenos de broadcast, isto é, um emissor para uma miríade de receptores: livros, revistas, rádio, cinema, televisão e espectáculos ao vivo. Sem a invenção e sem a banalização do computador pessoal que ao longo de toda a década de 1980, e sobretudo na década de 1990, abriu a principal brecha no paradigma tecnológico que dominou os sistemas de representação simbólica ocidentais desde a impressão da Bíblia por Gutenberg (1450-55), estaríamos ainda submetidos aos mesmos paradigmas da recepção cognitiva e estética de há 500 anos. De repente, uma máquina electrónica permitia pela primeira vez escrever, desenhar, registar, reproduzir e jogar num ambiente de representações virtuais electrónicas, sustentado por sistemas invisíveis de algoritmos e programação digital. Ao contrário da inscrição directa ou analógica dos estímulos e dos signos sobre superfícies moles ou duras, passámos a usar interfaces de mediação digital, cuja finalidade é traduzir e instanciar tais inscrições em realidades puramente crípticas e electromagnéticas, seguindo labirintos de complexidade exponencialmente crescente, até configurar a actual metafísica tecnológica -- impenetrável e fundadora de um reincidente sentimento de inferioridade humana. Um autêntico Deus ex machina na forma vicariante dum electrodoméstico extraordinário, imiscuiu-se indelevelmente nas nossas vidas!

Sob condição de aprender a lidar com os respectivos teclados e pré-combinações de teclas (macros), ratos, joysticks e ambientes gráficos, o indivíduo podia começar a destacar-se do “homem-massa” dos séculos 19 e 20, descrito por Ortega y Gasset:
“La perfección misma con que el siglo XIX ha dado una organización a ciertos órdenes de la vida, es origen de que las masas beneficiarias no la consideren como organización, sino como naturaleza”. -- La Rebelión de las Masas (1926-1937).
A exigência de símbolos e de sentidos podia, enfim, derivar de um esforço pessoal, social e culturalmente partilhado, cognitivo, subjectivo e moral. No entanto, sem percorrer as curvas ascendentes cada vez mais acentuadas da aprendizagem do uso dos novos artefactos, o acesso a este promissor e cativante patamar de performance social, comunicativa, cognitiva, lúdica e estética seria pura e simplesmente vedado! Sem dominar os novos algoritmos e as novas interfaces não haveria recompensa sensorial. Não existiria sequer a possibilidade de consumir, ou partilhar. O desejo de gratificação imediata, satisfeito até aí numa sociedade consumista reduzida à dimensão Orwelliana de um público submisso à omnipresença dos poderes de emissão e disseminação simbólicas, seria então um objectivo inatingível. Este não foi, porém, um problema exclusivo do homem-massa mimado, incapaz de aceitar o mais pequeno obstáculo ao seu desejo infinito de novidade. O aparecimento dos computadores digitais, e sobretudo a vulgarização dos computadores pessoais, conduziu a alterações drásticas nas relações económicas e produtivas, com a consequente destruição criativa de inúmeros postos de trabalho e especificações técnicas.

A partir de 1994 deu-se uma segunda revolução tecnológica: os computadores começaram a falar entre si, estabelecendo redes locais e redes globais (internet, intranet, extranet), suportadas por protocolos de transmissões de dados, cada vez mais rápidas, a distâncias cada vez maiores, com conteúdos cada vez mais ricos: textos simples e formatados, imagens, vídeo, voz e aplicações diversas. Computadores, cabos de fibra óptica ou de cobre, transmissores e retransmissores hertzianos, satélites, redes locais sem fios, Global Positioning System (GPS), etc., convergiram e continuam a convergir para uma espécie de duplicação digital inteligente (genética), interactiva e em tempo real, do mundo. Mas se, por um lado, esta duplicação se encaminha para regimes de usabilidade e naturalização cada vez mais intuitivos e democráticos, ampliando por esta via o seu enorme potencial económico, por outro, cresce ainda mais depressa o fractal das suas dimensões conceptuais, cômputo-linguísticas, tecnológicas, científicas e culturais. E de entre estas dimensões, no que à expansão dos campos da criação artística se refere, o que se suspeitava que viesse a acontecer, aconteceu: a arte enquanto manifestação da subjectividade concreta, isto é, instanciação simbólica das formas culturais tecidas pelas sociedades humanas, aproximou-se, instrumental e ideologicamente, das lógicas cognitivas e linguísticas dos procedimentos de representação científica e tecnológica.

Cada vez mais a aparência da arte guarda no seu interior motores computacionais, sistemas operativos, meta-linguagens criativas e até material vivo, sem os quais a nova comunicação estética, digital, imaterial, variável, interactiva, orgânica e mutagénica, perde, não apenas actualidade, mas o próprio direito de existir.

A proximidade cultural entre arte e conhecimento é cada vez maior nas sociedades pós-contemporâneas, e é-o em grande medida por efeito do entrelaçamento cada vez mais íntimo entre as praxis artística, tecnológica, computacional e científica. Três bons exemplos desta convergência analítica, filosófica e estética são as chamadas artes generativa, robótica e biotecnológica. Numa aproximação sociológica a este fenómeno, diria porém que a arte de base cognitiva (knowledge-based art) se constitui às vezes por uma espécie de imperativo crítico, enquanto desvio simbólico e contraposição de lugar relativamente aos múltiplos imperialismos cognitivos que ameaçam a serenidade de uma consciência mais ampla do relativismo das representações por nós produzidas.



II

Nisto estávamos quando o novo século começou a impor à reflexão de todos nós um dado até há pouco invisível e por isso inesperado, da nossa própria ilusória configuração cultural. E o dado é este: o paradigma energético responsável pela forma actual da nossa civilização ultrapassou já metade da sua vida útil. Quer dizer, levámos 100 anos a consumir metade de todo o petróleo economicamente viável, disponível no planeta, pelo que seremos em breve forçados a abandonar esta fonte energética de primeira grandeza, acumulada pela Natureza ao longo de centenas ou mesmo milhares de milhões de anos. Muito provavelmente, entre 2030 e 2050, o actual regime energético em que toda a cultura científico-tecnológica e cultural assenta, sofrerá uma transfiguração sem precedentes, de que a presente corrida, algo atabalhoada, às chamadas energias alternativas, é já um seguro e dramático anúncio.

Imagine-se que seríamos forçados a abandonar este planeta daqui a duzentos ou trezentos anos.  Ou que este cenário dantesco (pois, além do transtorno de uma vida extra-terrestre, suporia a eliminação ou o abandono de mais de 9 décimos da humanidade), seria antecipado e abruptamente substituído por outro, menos radical , mas não menos apocalíptico: o do retorno aos níveis de vida e produtividade médios da era pré-industrial. Quer dizer, a  uma era sem utopia, sem automóveis, sem comboios, sem aviões, sem congelados, sem pronto-a-vestir, sem telemóveis, sem iPods, sem computadores, sem televisão, sem electricidade, com as actuais manchas urbanas e suburbanas reduzidas a sucatas infinitamente tóxicas, inóspitas e criminais. Inverosímil?  Pelo contrário, altamente provável!

Só há menos de duzentos anos usamos intensamente o carvão, o petróleo e o gás natural. Só desde meados do século 19, com o uso do ferro forjado e do aço, e sobretudo pela acção extraordinária da multitude de máquinas movidas a vapor, a explosão e a electricidade, foi possível passar de uma era, de quase dois mil anos, em que o rendimento médio anual “per capita”, na Europa Ocidental, passou dos 576 dólares americanos (de 1990), no ano 1 do nosso calendário, até aos 1.572 dólares, no ano 1850, para um século, o século 20, em que os rendimentos subiram mais de dez vezes.

Ainda que relativa e muito mal distribuída, a nova riqueza proporcionada pela disponibilidade de fontes energéticas abundantes, baratas e de alto rendimento, pela maquinaria e pelas tecnologias cada vez mais produtivas e sofisticadas, bem como pela exploração intensa do trabalho humano, permitiu que os rendimentos médios anuais “per capita” chegassem na Europa, em 2003, aos 19.912 US Dólares. Ou seja, 12,6 vezes mais do que a média dos rendimentos “per capita” na Europa de 1850, e 25 vezes mais do que em 1500. Imagine-se o que seria viver, conhecidos estes dados, numa era pós-carbónica, com rendimentos dez ou vinte vezes inferiores aos actuais. Hoje, quando um país, um continente, ou o mundo global deixa de crescer durante três trimestres consecutivos, declara-se oficialmente a “recessão”, o pânico mediático instala-se e tudo parece caminhar para o colapso: empresas a fechar, desemprego, aumento da criminalidade, suicídios. Imagine-se então o que ocorreria se regredíssemos de uma época de crescimento positivo sistemático para um outra em que a regra passasse a ser, mais do que a da estagnação económica, a do decréscimo imparável da produção e dos rendimentos.

Este cenário, que não está tão longe quanto possa parecer, teria implicações imediatas na nossa percepção do valor das artes, bem como na sua inevitável degradação em termos tecnológicos. Muito antes de chegarmos ao decisivo momento da implosão civilizacional, experimentaremos toda uma série, cada vez mais frequente e intensa, de fenómenos indicadores de que o paradigma energético que regula a nossa vida e a nossa cultura se aproxima inexoravelmente do fim.

As guerras que actualmente se arrastam no Médio Oriente (Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano) e em África (Quénia, Eritreia, Chade, República Centro Africana, Nigéria, etc.) são já o resultado e o figurino de conflitos que tendem a multiplicar-se e não a diminuir, em torno de recursos estratégicos, tais como o petróleo, o gás natural, os cereais e a água. O mundo consumiu em 2003 cerca de 80 milhões de barris de crude por dia. Os Estados Unidos consumiram 25% deste petróleo, tendo gasto 2/3 desta quantidade no sector de transportes. A crise económica actual nos Estados Unidos decorre, aliás, de um sobre-endividamento insustentável, fruto da sua extrema dependência das energias carbónicas (sobretudo petróleo e gás natural) e ainda da exportação de boa parte da sua capacidade produtiva para países terceiros com mão de obra e custos de contexto muito inferiores.

Por causa dos inevitáveis e nefastos efeitos da sua imparável dívida, os Estados Unidos correm o sério risco de perder o seu estatuto entre as demais nações e estados, e caminhar para um perigoso declínio. Que efeitos poderá uma tal evolução negativa induzir nos elevados níveis de performance tecnológica e cultural daquele que tem sido nos últimos 50 anos o principal criador de modelos de criação, produção, circulação e consumos artísticos? Que ocorrerá se empresas da dimensão da Google acabarem por ser engolidas por um qualquer vórtice dos violentos tufões financeiros que a ritmo cada vez mais assustador “atacam” os Estados Unidos? Que acontecerá à produção mundial de micro processadores se houver uma catástrofe natural ou bélica na Ilha Formosa, por exemplo, na sequência de uma não aceitação, pelos Estados Unidos, da reunificação da China? E que sucederá na Europa e demais continentes, cujas relações com a potência americana, seja na qualidade de fornecedores, seja na qualidade de consumidores, são vitais, no momento em que a decadência económica dos EUA se revelar como um facto indiscutível e irreversível? Se tal vier a ocorrer, como evoluirá a nossa tão estreita como inconsciente dependência do bem-estar económico, científico e tecnológico? A actual recessão mundial, que durará porventura todo o ano de 2008 e de 2009, ensinar-nos-à muitos factos novos sobre o futuro imediato.

A capacidade de renovação tecnológica de que tão criticamente dependemos parece estar seriamente ameaçada. Pense-se apenas no que ocorrerá no momento em que não for mais possível substituir os nossos computadores pessoais, ou os nossos automóveis, iPods, telemóveis, etc., por máquinas novas e mais potentes. Quanto tempo irá durar o meu carro? Por quanto tempo mais poderei manter o meu laptop operacional? Que sucederá ao mundo digital actualmente mantido nos milhares de servidores por esse mundo fora? Não foi lá que depositámos quase tudo o que temos? Desde as nossas economias às nossas conversas de amor?

30 janeiro 2008 (revisto em 7 dez 2011)
Copyright © 2008/ 2011 by António Cerveira Pinto