sábado, 22 de maio de 2021

Humanismos, anti-humanismo e pós-humano

CkS1978, Blow-up, 2021

Teleologia


A propósito de Jean-François Lyotard e do seu extraordinário livro L'inhumain/ Causeries sur le temps (1988), enquanto preparo uma exposição de Manuel Casimiro.

A teleologia cristã situa a emancipação humana no reino de Deus, aprisionando deste modo a humanidade ao atrito terreno e social. A modernidade renascentista, e posterior (de que o pós-modernismo foi uma espécie de breve paragem cardíaca), abriu uma brecha no fatalismo mitológico, estabelecendo o conhecimento e a liberdade criativa como formas de escapar ao atavismo espacial das tribos, nações, e estados. O marxismo, porém, embora sendo uma instância ideológica particular do tempo moderno, regrediu do protestantismo capitalista para uma recaída despótica na teleologia. Este regresso ao atavismo perdura ainda, sobretudo sob o impulso do pós-estruturalismo francês saído do trauma da colaboração francesa com o nazismo, e da decadência social americana, agora na forma de um pensamento 'politicamente correto', mas assimétrico e moralmente ambíguo. Os ventos dominantes, apesar da legitimidade moral das agendas da igualdade de género e dos direitos LGBT+, de reparação das vítimas do colonialismo, anti-racistas e anti-sexistas são, porém, outros. A tecnociência, a ficção científica e a cibernética, mas também o regresso de uma filosofia orientada para os objetos, e a persistência da arte (que ocupou sempre e sempre ocupará o lugar da incerteza cognitiva e verbal que dá lugar à instabilidade e transitoriedade próprias do conhecimento), são os verdadeiros motores de uma dupla descolagem, por um lado, dos cadáveres do marxismo e do cientismo, por outro, da própria modernidade projetiva, em direção a uma pós-contemporaneidade programável, na qual o fundamentalismo das causas e dos amanhãs que cantam dão lugar a uma pragmática cultural humildemente oscilante entre o saber, a experiência e a arte.

Do capitalismo objetivo


Sem capital não há capitalismo nem, muito menos, socialismo, apenas (nos tempos que correm) sociedades falhadas.

Existem apenas duas formas de acumular e concentrar a riqueza:
 
1) explorando as pessoas e outros animais, que são sempre, neste paradigma de complexidade, tendencialmente escravos, i.e. força de trabalho sujeita à lei da oferta e da procura, e portanto, mera energia para alimentar a fabricação de objetos, ideias e fantasias destinados à produção e ao consumo, e

2) desenvolvendo tecnologias, numa primeira fase, para aumentar a produtividade do trabalho, e numa segunda, para substituir o próprio trabalho (humano/animal/biológico), consciente e inconsciente, por uma espécie de aceleração e sofisticação da neguentropia, na qual a lógica e os desejos da humanidade se subordinarão, em suma, ao Deus implacável a que Leibniz chamava a mónada das mónadas, ou a mónada absoluta.

O primeiro sinal deste pós-humanismo, ou melhor, da emergência de uma realidade imanente, pós-humana, ocorre já entre nós sob a forma de uma restrição ecológica drástica e iminente, visível, por exemplo, na imposição crescente dos constrangimentos descritos em a Tragédia dos Comuns (Garrett Hardin), nomeadamente enquanto limites objetivos ao modelo de crescimento exponencial assente na extração das energias fósseis, no fim das sociedades alimentadas pelo consumo, na mudança do perfil das classes médias, na hiper-racionalização cibernética, ou ainda, na rejeição da dita era antropocénica.

Não confundir, porém, este pós-humano com o anti-humanismo de origem marxista-leninista fundado no terror revolucionário de Robespierre, e mais tarde, no cobarde existencialismo e pós-estruturalismo de inspiração marxista-leninista-estalinista-maoista nascido no seio da burocracia universitária do pós-guerra francês (traumatizado duplamente pelo anti-semitismo plasmado no caso Dreyfus, e mais tarde, pela sua vergonhosa capitulação frente ao Blitzkrieg nazi). Não por acaso, o único filósofo francês (Jean-François Lyotard) que parece ter entendido claramente esta distinção entre o pós-humanismo cibernético, nascido da complexidade a que chama o "ar cósmico habitado pela espécie humana", por sua vez, intrinsecamente simbiótico (Lynn Margulis), e o anti humanismo marxista e pós-marxista, parece ter-se eclipsado no recreio das ideologias politicamente corretas, cuja captura pelo retro-marxismo sofisticado de Jodi Dean é hoje uma evidência.

Do Sublime


"Le sublime est peut-être le mode de la sensibilité artistique que caracterize la modernité" (1)

Sim, e corresponde também ao estado de espírito do indivíduo nascido do Renascimento, um indivíduo progressivamente despido de Deus e dos seus vigários na Terra, libertado, por outro lado, desse postulado negro que nos ameaça, aterroriza e por fim engole em nome de uma morte transcendental prometida em testamento divino.

A Fé que repousa no Deus-Homem introduziu no Ocidente, e não só, aquilo a que poderíamos chamar um privilégio humanista, que nos coloca acima do resto da vida e da realidade, protegidos, em suma, pela ideologia da proximidade preferencial da Humanidade à Ordem Universal, só possível através uma espécie de comunhão única entre racionalidade e sensibilidade. Esta forma de arrogância religiosa colocou o humano e o seu planeta no centro do universo, no centro da realidade. O não-humano estaria, nesta cosmovisão teológica, potencialmente subordinado aos servos privilegiados de Deus, à sua criação e vontade. Mas o humano, paradoxalmente, viria a tomar a árvore do conhecimento, não como um diagrama de acesso à verdade, mas antes como um caos de sombras, cujo terror e vazio o impele invariavelmente na direção do Deus inscrito no Novo Testamento, representado na Terra pelos vigários de Cristo. O saber não sancionado pela doutrina apostólica-romana tornar-se-ia, assim, heresia, sujeita à denúncia, julgamento, condenação e, frequentemente, pena capital.

Esta é, por assim dizer, a variante monoteísta do humanismo saído da decadência e colapso do império romano. Este humanismo monoteísta, que conduziu a Europa a uma nova ordem económica, social e ideológica com o seu centro irradiador de legitimidade política ancorado na nova Roma cristianizada, não resistiria, porém, à fricção dos novos 'conhecimentos de experiência feita' trazidos, primeiro, pelo método científico em gestação no Renascimento italiano, e segundo, pelas explorações marítimas iniciadas pelo portugueses nos finais do século XIV, início do século XV.

Estes dois vetores conduziriam o Ocidente ao regresso, por assim dizer, do panteísmo. Esta viagem de retorno ao futuro-anterior tardaria, porém, vários séculos a ganhar forma. 

O humanismo monoteísta apostólico-romano predominou, sobretudo no Ocidente europeu e americano, até ao colapso a que hoje assistimos, mesmo nas suas variantes heréticas (luterana, calvinista e anglicana). A Reforma Protestante, e antes dela a visão crítica de Erasmus sobre a auto-suficiência paroquial, o autoritarismo e as dogmáticas, tanto dos arrogantes, corruptos e decadentes fariseus romanos, como dos novos paladinos da pré-destinação que tão bem viria a servir o espírito do Capitalismo, abririam fissuras irreparáveis desde então. No entanto, apesar desta ferida aberta, o "a priori" humanista-monoteísta manteve-se até hoje no Ocidente; apesar da energia convulsiva de todos os reformistas e revolucionários (John Wycliffe, Johannes Hus, Martinho Lutero, João Calvino, Thomas Müntzer, Marat, Robespierre, Karl Marx, Lenine, Trotsky); apesar do Iluminismo francês (Rousseau, Diderot, Montesquieu, Voltaire); apesar do Romantismo alemão; apesar do Positivismo inglês e de Charles Darwin; apesar do Socialismo Utópico e de Karl Marx; apesar da Psicanálise freudiana e de Jung; apesar do Neo-positivismo vienense, do Pragmatismo americano, da Teoria da Relatividade, e da descoberta do ADN.

Nada melhor para o demonstrar, que a luta feminista (3) pela igualdade de direitos, contra o patriarcado e pela autonomia sexual; o acordar do pesadelo colonial; a emergência da alteridade de género, ou ainda; a socialização do erotismo.

O pós-humano de que se fala, mais do que a emergência do inumano, ou do não humano enquanto democratização ontológica dos objetos no espaço-tempo, enquanto inércia, sensação, perceção e inscrição de múltiplos atores e interações, ou do que uma resignada humanidade protésica, parece ser, antes de mais, o culminar da viagem renascentista que poderá, ou não, abrir uma nova oportunidade para um humanismo desejável, no qual o indivíduo e as coletividades adquirem a liberdade de amar e conhecer sem ferir. Isto sim, será sublime!

E sim, a arte moderna moderna encontrou nas estratégias do sublime o modo ideal de suspender as ideologias, incluindo as que impulsionam a ciência, em nome de uma nova e necessária imersão holística do humano na realidade.


1. Jean-François Lyotard. L'inhumain, causeries sur le temps, 1988.

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