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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

António de Maria

A mãe, Maria, o Pai, António, e o filho, António Maria
Anotações na foto: "Dezembro 1953/ Miúdo tremido/ Prova regeitada"

por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Um amigo enganou-se na data e resolveu enviar-me uma mensagem de parabéns no dia anterior ao aniversário. Como a saudação foi também enviada para uma lista de correio, aconteceu algo para mim inédito: sucessivos mensagens de felicitações antes do dia sagrado. Até a minha filha, que viveu em Madrid os últimos quinze anos, e parte amanhã para Bruxelas, me telefonou dando os parabéns, uma hora antes do dia 27, esquecendo-se que em Madrid se vive sessenta minutos à frente de Lisboa. Fartámo-nos de rir na conversa Skype sobre o tema.

Este episódio insólito levou-me a reparar numa circunstância ainda mais insólita: há décadas que comemoro o meu aniversário com oito horas de atraso sem nunca me ter dado conta disso. Nasci em Macau, junto às ruínas de São Paulo, a 27 de novembro de 1952, às duas e meia da tarde. Os pais eram lindos, e eu ainda sou ;) Ao acordar neste meu dia de anos vivi um sonho renitente. Tinha deixado o meu boné no vestiário de um grande edifício, onde entrava e de onde saía muita gente, e quando o quis recuperar, não apareceu. Havia centenas de bonés, e eu podia, na realidade, ter levado qualquer um, e havia-os de todas as cores e feitios, alguns novinhos em folha, outros com marcas caríssimas. Mas eu queria o meu boné. Tentava lembrar-me de todas as suas características, descrevendo-as às meninas e aos rapazes que atendiam as pessoas apressadas como eu. Mas nada, não aparecia. Acabei por acordar. Voltei ao sono e o mesmo sonho regressou. Circulavam então diante do vestiário empregados com carrinhos transportando todo o tipo de roupa, bonés incluídos, e até o meu robe de feltro branco! Mas o meu boné, nada...

A manhã nasceu gelada, meti-me no duche quente e organizei, como sempre faço, o dia que iria ter.

A Cândida deu-me um beijinho de parabéns. Decidimos que não iríamos almoçar fora, que eu prepararia um belo peixe assado acompanhado do espumante bruto da Cartuxa, 2009. Esprememos laranjas de inverno, azedas como eu gosto, torrámos pão, e preparámos o café. Corrijo: a Cândida preparou o pequeno almoço e trouxe o café para a mesa inundada de Sol, como quase sempre faz. Apesar do frio de rachar, o Deus da luz inundou a casa como sabe que adoro, sem cerimónias. Liguei o computador e a Cândida ofereceu-me, com os cuidados prévios do costume —que se não gostasse poderia trocar, que tinha o recibo, que..., que achava que eu iria gostar... do livro de Isabel Stilwell sobre uma das minhas heroínas: a Rainha Filipa de Lencastre, inglesa e mãe de uma geração de portugueses educados como raramente vimos na nossa História. Abracei-a e ganhei o dia naquele momento.

Antes de sairmos, já o meio dia ia bem alto, para comprar o peixe fresco, ressurgiu a pequena aflição sobre o frio lá fora. Não sei porquê, levara para o nosso apartamento no Porto todos os agasalhos de inverno. Calculei, mal, que passaria boa parte do tempo lá para o Norte, em vez de continuar as minhas rotinas pelo Sul. E o meu querido sobretudo felpudo do Adolfo Domínguez tinha-o deixado há meses em casa do Pedro, meu querido amigo do liceu D. Manuel II. Como nunca mais cumpri a promessa de o trazer até nossa casa para almoçarmos juntos, o castigo aí estava: fazia frio lá fora, e eu estava sem abrigo!

Haveria algum anorak no guarda roupa da garagem, ou foram todos para o Porto, perguntava-me a Cândida. Não sei, vou espreitar.

Dentro de uma protetora capa de PVC azul escuro lá estava um esplêndido e por estrear 'Outdoor Wear' herdado do meu pai, e de que não tinha já a menor lembrança. Desde que a minha mãe partiu, e o meu pai foi ter com ela, que a presença de ambos se foi tornando cada vez mais viva. Um leve sentimento de culpa perpassa por vezes estas memórias. Sinto-me hoje muito mais perto do pai do que quando este era vivo e com ele mantinha divergências ideológicas permanentes e ambos cultivávamos silêncios que soavam como tratados. Ele foi um militar íntegro, e viu tudo. Nunca vi ninguém suportar a dor como ele. Era evidente que seria eu, o filho mais velho, crítico, irrequieto, que dois dias antes discutira com ele por uma carta estúpida vinda da aldeia, quem ele veria pela última vez antes de ser entregue a uma médica galega aflita no Hospital Militar Principal, onde morreria uma hora de agonia depois.

A Patrícia, minha filha, deu-me, a mim e à Cândida, uma grande felicidade ao ter ganho, por mérito exclusivamente próprio, há pouco mais de um mês, um difícil concurso de acesso a um posto de trabalho numa grande empresa de consultoria em Bruxelas. A Cândida ofereceu-me um livro magnífico. E o meu pai protegeu-me do frio quando menos esperava.

Que dia!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

TOYZE

TOYZE — Maputo, 2013

Estes gémeos não são idênticos
por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

«(...) algumas características dos gémeos tornam-se mais semelhantes com a idade, tais como o QI e a personalidade». [Wikipédia]

António Salvador Carvalho e António José Carvalho são gémeos idênticos, conhecidos por amigos próximos como Tó (o gémeo mais velho) e Zé (o mais novo). TOYZE é uma tentativa recente para fundir os dois irmãos num único autor e assinatura, e pode ser vista como um heterónimo, ou antes, como mais uma tentativa de alcançar o impossível regresso ou reconstituição da identidade perdida à nascença. Zé, neste momento, é a metade mais activa de TOYZE, autor de RI-TE!, um trabalho em andamento cujo foco é o meta-mundo dos emoticons. Tó encontra-se actualmente na China, perto de Xangai, a desenvolver um estúdio 3-D.

Tó, o gémeo mais velho, aproxima-se da representação como um tecido complexo de desenhos, rasuras, sobreposições, contornos, esboços, camadas, até que a imagem final apareça como resultado de mais uma batalha entre os artefactos, as tecnologias, as personagens e os fantasmas da sua fábrica de imaginações convulsivas.

Zé, o gémeo mais novo, usa a mão como um elo elegante e quase invisível para um fluxo condensado e ininterrupto de imagens sintécticas e narrativas que correm em direcção a qualquer branco disponível. A ausência de fundos nas suas figurações extraordinárias prenuncia um potencial expansionista e escultórico, a capacidade de migração para o espaço tridimensional e uma materialização iminente nos mais inesperados materiais. Alguns artistas e estilos tiveram uma grande influência na sua obra: Jacinto Pereira da Costa, um artista manuelino que pintou a Sala dos Capelos na Universidade Coimbra, Walt Disney, mas acima de tudo, o italiano Jacovitti, autor do herói de banda desenhada Jak Mandolino, assim como o artista japonês de manga, ilustrador e pintor, Suehiro Maruo.

Estes gémeos são autores prodigiosos, assumindo influências vagas de Goya, das “gravuras do mundo flutuante” (U-kyoe), da Manga, do Anime e das aventuras japonesas pós-pop em geral, de onde podemos destacar autores como Chiho Aoshima, Henmaru Machino, Aya Takano, Bome, Enlightenment (Hiro Sugiyama), ou um artista tão sofisticado quanto Takashi Murakami, e até mesmo os estilos ameríndios e as máscaras africanas. Erotismo, para não dizer porno anamórfico e figuração radical, comentários sobre a cultura quotidiana, marcam uma atitude niilista, nomeadamente face à “arte contemporânea” e à ladainha “conceptual” horrenda que inundou e quase sufocou centenas de escolas superiores e a chamada “conversa” da arte. Eles opõem a este lixo intelectual e pompier a teknné que nenhuma arte verdadeira alguma vez dispensou como propriedade que a distingue.

TOYZE não acompanha a corrente e não obedece às pequenas burocracias da vanguarda institucional. Tal atitude significa uma completa falta de carreirismo. Estes dois artistas desconhecem, tanto como duas borboletas numa manhã de primavera sobrevoando as estevas, os meandros do mercado da arte, dos museus, das bienais e dos críticos de arte.

Tant pis pour eux! Ou tant pis pour nous?

Ri-te!

O livro Red Label publicado pela Stolen Books é uma versão digital a duas cores de um projeto maior chamado “Ri-te” (originalmente, A smile a day) — 365 rostos e máscaras que riem. Os ‘emoticons’ que usamos quase todos os dias nos nossos e-mails, SMS e publicações online em geral, inspiraram estas imagens. São desenhos poderosos e coloridos que nascem de pequenos esboços (doodles) em cadernos de apontamentos durante reuniões pedagógicas a que Zé assiste regularmente, capturando os humores do artista e o zeitgeist político e cultural que nos rodeia.

Estamos a viver de novo um tempo de rápidas mudanças. Tal como na arte urbana (street art), estes risos e esgares capturam a mesma urgente e nada convencional literacia visual da escrita sobre paredes. Eles são, essencialmente, um discurso radical.

Como meta-desenhos digitais, estas máscaras, no seu formato vectorial, funcionam ao mesmo tempo como moldes ou potências de identidades futuras.

Como TOYZE (Zé) explica, não há intencionalmente fundo nestas imagens. Elas podem evoluir para autocolantes para skates e pranchas de surf ou de bodyboard, para T-shirts, ou para educadas pinturas domésticas e até de museu, ou mesmo expandirem-se por grandes murais. Estas imagens esperam também por transformações 3D, a realizar pelo seu irmão TOYZE (Tó), possivelmente para enformar futuras esculturas, gerar animações e desenvolver complexos projetos de animatronics. Curiosamente, estes bonecos nascidos da distração são máquinas de arte conceptualmente elaboradas.

Lisboa, outubro / novembro 2013

TOYZERi-te !

—trinta ‘pieces’ e uma pintura mural

Projeto curatorial: Olho por olho, mente por mente — de António Cerveira Pinto

Inauguração: Quinta-Feira, Nov 21, 2013 (18:00-21:00)
Até: Sábado, 4 de janeiro de 2014

Conversas à volta da mesa, apresentadas por Luís Serpa, com António Cerveira Pinto e TOYZE | Terça-Feira, dia 3 de dezembro, 18:30-20:30 | Leitmotiv: A via das máscaras, segundo Claude Lévi-Strauss, à luz de um par de gémeos (um deles ausente?) e a replicação eletrónica da personalidad.
@ Galeria Luís Serpa Projectos
Rua Tenente Raul Cascais—1B, Lisboa | TLM: (+351) 964 028 807 (Google Maps)

Not identical twins
By ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

    “… certain characteristics become more alike as twins age, such as IQ and personality” — Wikipedia.

António Salvador Carvalho and António José Carvalho are identical twins, or MZ twins, known by close friends as Tó (the older twin - and for the purpose of this writing called T) and Zé (the younger one, Z). TOYZE is a recent trial to fuse both siblings into a single author and signature. It is a tentative third fictional author looking for an impossible dream: complete identity bioengineering. In the context of this project, Z is the most active half of TOYZE and the one responsible for “A smile a day”. This is a work-in-progress around the new meta world of meaning and communication known as comics, street art, toys or, as they like to call it, ‘bonecos’. T is presently in China developing a 3D studio.

T, the older twin, approaches representation as a complex fabric of drawings, erasures, superimposed images, layering sketches after sketches until a last picture come along as a result of a hand battle with the many artifacts, characters and ghosts of his convulsive imagination factory.

Z, the younger twin, not a perfect clone of T, uses his hand as an almost invisible link to what appears as an uninterrupted flow of synthetic imagery, and highly condensate visual narratives that run toward any void available. Some artists and styles have had a great influence on his work: Jacinto Pereira da Costa (a late Renaissance Portuguese artist that painted Sala dos Capelos inside the old Coimbra University building), Walt Disney and comic books in general, but above all the Italian comic artist Jacovitti, author of Jak Mandolino character, as well as the Japanese manga artist, illustrator, and painter, Suehiro Maruo.

Both these twins are prodigious draftsmen, running vague influences from Goya to ‘U-kyoe’ and Manga, Anime and post-Pop adventures like the ones by Japanese artists and collectives like Chiho Aoshima, Henmaru Machino, Aya Takano, Bome, Enlightenment (Hiro Sugiyama), or smart artists like Takashi Murakami, or even Amerindian as well as African folk art.

Eroticism not to say some Porn morphs and radical comments on culture make a clear point as their nihilist attitude towards ‘contemporary art’ and the horrendous conceptual litany that took over hundreds of art schools and the so-called ‘conversation’ of art.

They oppose to this new academia and to this all-over enforced concept art a back to basic deviation. They insist in a wild ‘teknné’, that’s what they do.

For TOYZE not to go with the trend and not to obey the new bureaucratic avant-garde establishment means a complete lack of rampant ambition. These two artists couldn’t careless more about art dealers, museums, ‘biennales’ and art critics than two butterflies running wild in a green field on a Spring sunny morning. Tant pis pour eux! Or tant pis pour nous?

A smile a day

The artist's book —Red Label— is a two color version of a larger project called “A smile a day”, 365 digital smiling faces and masks. Emoticons that we use almost everyday in our emails, SMS and online posting at large, inspired these pictures. These powerful and colorful drawings done by Z on a daily basis, capture the moods of the artist and the political and cultural zeitgeist around us. We are living again in fast changing times. As in street art, these smiles capture the same urgent non-conventional literacy of wall writing. They are essentially radical stuff.

As digital meta-drawings, these masks work like moulds for future entities.

As Toyze (Z) explains, there is no background on purpose. They can evolve to skateboards and surf boards stickers, T-shirts, educated home or museum paintings, or expand to a big wall of fame. These pictures also wait for his brother’s transformations into 3D prints, sculptures, movie animations and animatronics. Curiously enough these are very conceptually and elaborate art machines.

Lisbon, November, 2013.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Miguel Palma

MIGUEL PALMA, Grey Matter, #1, 2013
Collage, acrylic and ink marker on paper
46 x 60 cm

Dripping
by ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

“One Arizona man thought he had year-round allergies when his nose continued to run. He was shocked to find out after years of suffering, his runny nose was actually his brain leaking fluid, FOX 10 reported” (1).

GREYMATTER (2013)

Forty eight ‘collages’ punctuated by cropped sentences and cropped images under/over a variable old ©Pantone selection of tones and black ink drippings, that’s what it is. These drawings remind me of a nostalgic visitation to European modern times, when art, poetry and literature were scattered in thousand pieces by the liberty cry of the new revolutionary and independent citizens. It looks to me like a humble Dada excursion to the foundations of post representation, when doing portraits of kings, queens and their horses, princes and princesses and their puppies, successful bourgeois and their lovers, ladies at Ascot, was left behind for a no compromising and very erotic freedom. These drawings remind me of pages from a scrapbook, from a travelling album, even from a map. As I know many other drawings and collages by Miguel Palma I should perhaps point to the fact that they actually play a fundamental role in the perlaboration of his other and more complex, material and functional artworks: sculptures, installations, machines about machines, delirious nostalgia in a time that is leaking fast and everywhere.

As I have written before (2007), “Glancing at Miguel Palma’s oeuvre, as it has developed from 1989 until today, it might well be said that it has been gradually architected and existentially suffered as an archaeology of lost time [...]. Or it could also be described as the personal archaeology of a time that is promising, seductive and fantastic… but lost! Time; the speed with which time passes; the price of the irresistible adrenalin, rendered commonplace by the technologies of the 19th and 20th centuries; the memory and nostalgia of those incredible illusions and good moments lived in the frightening vortex of the decades; in a word, progress! In short, the foam of a time that this artist’s work seeks desperately to hurl into a kind of fossilized aesthetics, faithful to the passage of time, but more durable than time itself. Than our own time, naturally.”


BEYOND TODAY (2005)

Photons, like words, can start an image process inside the brain by exciting that marvelous 1300 cc of whitish, grayish and pinkish pudding. The result of any such interaction is that some kind of external or internal perception, substantiated by content, is actually seen as the visual properties of the given object of perception. By the way, this given object is neither “given” nor “object” in a materialistic sense of “given object”, but rather a moving shadow, to use a Platonic analogy. What we see is nothing but a fragment of the all-photogenic hologram generated by the collision between light and what we then call the perceived object. The vision of such and such a thing, that whether by accident or design we perceive as “seeing”, is nothing more than the beginning of an epistemological process, that may or may not evolve as a historical accumulation of knowledge, esthetic sublimation and moral convictions. From the day we start building an internal library of visual entries, to that anxious night that will shut our eyes forever, every image evolves inside of us like a philosophical category, oscillating between the theatrical surprise of its scandalous appearance and the metaphysical contemplation of its possible truth. If there is anything the digital image has cleared up, then it’s certainly the obsolete debate about the origin of any image. Is it a sensational event or, on the contrary, a purely mental performance? Well, it seems to be something in between...

We build images the same way as we build concepts: with constant effort and attention! What is most important, and rather Marxist, is that until now pictures have been bloody frozen moments of historical class struggles upon which all human identities and narratives rest. Any digital image —that’s the novelty of it— is only a potential image, preserved as code, far from being an actual image until the day some genetic order arrives: “Be that image!” Any computer geek can give this order whilst knowing absolutely nothing about the process he has just triggered. So when one says that the computer can play the role of a new and more productive model for understanding visual arts and its potential stumbling blocks this means that one has to take into consideration both its common use and its nature.

As soon as computer art becomes common sense, leaving behind it all the cheap metaphysics of progress that defined the commercial and urban aura of Information Technology, we will have the time and opportunity to concentrate on its inner novelty, as something much bigger than just a sophisticated and very productive tool. To work properly with computers, artists will have to co-evolve with them in a kind of a symbiotic process. Learning from computers is not the next but actually the latest big thing in “post-modern”, “post-human”, co-generative, “collaborative”, or as Bruno Latour might put it: “actor-network” art.

I insist that I am not thinking of some new way to opportunistically abuse technology. What really matters now is that there is the possibility of some kind of co-evolution into a completely new art paradigm, based on a human expanded reality.


MONASTERY (2005)

We can examine the modern and contemporary era and its sequels in the light of the energies which gave birth to them. If there had been no coal or steam engines, what would it have been like? And what if there had been no petrol or natural gas? And if these carbon-based resources, which guaranteed the expansion of the industrial revolution, allowing the planet’s population to grow from a hundred million to 6.5 billion souls in the space of only 200 years, had already begun down the slippery slope of unavoidable decline? What would happen to our intellectual optimism if within 20 or 30 years the majority had to live without light sweet oil, without natural gas, and without the richest varieties of coal (or with drastically limited and extremely expensive access to these movable energies)? Worse still, what would happen if 20% of the world’s population, around the year 2050 (which by then would be about 1.8 billion struggling alpha souls), made the decision to sacrifice the other 80% of humanity and abandon 7.2 billion human creatures to hunger, thirst, continuous bad weather-related disasters, viral epidemics and permanent war, in the name of the survival of the species? There is nothing delirious about these pondering. The modern condition based itself upon an unconscious hypothesis, which we only discovered to be mistaken far too late: that of the unlimited and abundant availability of natural resources which corresponded to an ideology of continuous growth of the economy, consumerism and “welfare state”.

The “post-modern condition”, upon foreseeing the overtaking of the utopia of growth by a utopia of knowledge, nevertheless still retains a strong belief in the possibilities of world economic expansion. The post-contemporary condition, on the other hand, already takes into account evidence that there will be a dramatic rupture of the current global energetic paradigm around 2030-50, which will bring in its awake inevitable social decomposition on a planetary scale. What still needs to be known is if a dramatic cut-back in current levels of waste of energy and prime materials, combined with a genuine techno-cultural revolution, can possibly avoid the disaster and allow humanity to continue its evolution. One way or another, we will have to prepare ourselves for this rapidly approaching shock.

Some theoreticians argue that the overshooting of humanity has already begun, and that we will inevitably fall into the great pit of energetic scarcity, lack of drinking water, deterioration of agricultural land, the depletion of various basic prime materials, the inviability of continuing to create and manufacture synthetics derived from petrol and natural gas (plastics, fertilizers, dyes, varnishes, medicines, etc…), chains of environmental disasters, uncontrollable epidemics and new wars of mass destruction. What is to be done? What place is there for art and museums in a scenario of this magnitude?

I asked in a seminar on “audio-visualization in art” promoted by the Caixa Foundation in Barcelona, what would happen to the artistic heritage of the 20th and 21st centuries in a future in which the scarcity of energy and basic resources determined the entropy of the technological systems which currently support not only the continuing production of the virtual and enhanced reality in which we are immersed but also its electronic conservation. What will happen to Bill Gates’ photo-digital repository, to recorded music or to cinema and television archives, on the day that it ceases to be economically viable to produce new equipment and means of storage and digital reading and all analogical equipment has been permanently discontinued? Who among us has not seen, on a small domestic scale, the harmful effects of technological obsolescence: the hundreds of video cassettes lovingly collected over the course of the last 20 years are about to pass their sell-by date and DVDs will not even last that long! Computers go into the rubbish bins every four years or so, mobile phones every two years or so. It is easy to imagine this phenomenon on a global scale: the whole technological civilization suddenly hit by an unprecedented energetic and ecological rupture.

Alarming! The next big, fat “black swan” can not only freeze all our beloved technological gizmos, but also collapse the entire model of so-called post-industrial society itself. The service economy, great cities and their suburbs would cave in, and the return to subsistence-based socio-economic models would end up being imposed upon humanity. Following a catastrophic and violent interim, the survivors would have to rise up from the ashes to re-embark upon the long and difficult journey of human development. Where is the new starting point? How to restart? Which tools would be appropriate? In the name of what knowledge? Based on what moral convictions?

Will we return by the end of this century to a regime of low-intensity techne [τέχνη]? Will we revert to the times of wandering storytellers, aesthetic religious rituals based around crop seasons, or to anti-cataclysmic votive offerings? What will happen to the cognitive and technological heritage of the commercial and philosophical arts from the two centuries marked out by the invention of photography and Walter Benjamin’s reproducibility paradigm?

Philosophy and art will need to be reinvented in the light of radical changes in the anthropological model looming on the horizon. For this reason it would perhaps be worth considering the transformation of the world’s museums into real community centres dedicated to simulations of the approaching scenarios of change. The time has come to consider the idea of technological monasteries. Places where to prepare for a strategic withdrawal. Refugee labs consecrated to reflect with absolute honesty on possible ways to safeguard knowledge and art.


QUALIA

Reality is larger than it’s model, but only scientific models can define reality with accuracy.

Roberto Trotta: “I think it’s hopeless to ask of science to give us a ‘true reflection of reality’ [...] because science itself, in its becoming, is mindless” (2).

Contra-intuitive proposition: the universe is 95% flat and dark, and we only experience and see a tiny portion of its 5% bright 3d corner. That is here where we became an evolutionary speculation. The cosmological “view” of the universe is in this sense very much like Plato’s cave. In the open void there is a vast “a priori”: dark matter and dark energy.

Corollary: only a very small fraction of reality is and can be perceived as intuition; intuition btw is mostly a cybernetic interaction between sensorial bodies and information-stimuli.

Humans, like most organisms —bacteria, fungus, plants and animals— are not selfish individuals but live collective minds. Selfish genes can only prosper in collaborative environments.

Qualia is what allows any leaving creature to identify the world as a motive of attention, attraction and love.

Art is a continuous and concrete manifestation of subjectivity, made of time, attraction, qualia, body, language and τέχνη.



REFERENCES
  1. “Man’s runny nose was brain leaking fluid”. Published May 07, 2013, FoxNews.
  2.  “Dark Matter: Probing the Arche-Fossil”, Interview with Roberto Trotta, Collapse, Volume II, Urbanomic, 2Óxford, 2007.
NOTE
  • I wrote this text for Grey Matter, a book by Miguel Palma published by Stolen Books (2013). Grey Matter is also the title of the exhibition that I have curated for Galeria Luís Serpa Projectos (Lisboa).

sábado, 8 de junho de 2013

Artistas Anónimos (AA)




Experiência e Ideia da Obra de Arte
ANTÓNIO CERVEIRA PINTO / ROSINA CONSTANTE PEREIRA / ANA FORTES

OBJETIVO

Desenvolver a perceção, a experiência e a ideia de obra de arte numa dinâmica de grupo.

O artista é hoje atravessado por uma dúvida de vocação, por uma crise ética, mas também por uma crise profissional e económica.

É este mal-estar que o cruzamento de duas disciplinas: a psicologia terapêutica e a arte analítica (ou crítica de arte exercida pelo próprio artista) poderá trazer à superfície da nomeação e do gesto libertador, catártico, seminal.

Seria perigoso denominar unilateralmente a experiência proposta. Há neste cruzamento uma terra incógnita que, precisamente, queremos explorar.


PROGRAMA  

10 sessões

Sábados, 15:30—18:00

2013 | outubro 5, 12, 19, 26,

     | novembro 2, 9, 16, 23, 30
     | dezembro 7



COORDENADORES DAS SESSÕES

— Rosina Constante Pereira/ António Cerveira Pinto

— Observadora-Participante: Ana Fortes


Nº DE PARTICIPANTES: 8 a 10


Nº DE SESSÕES: 10 (outubro—dezembro, 2013)


PERIODICIDADE: semanal, Sábado, 15:30-18:00


DURAÇÃO DE CADA SESSÃO: 2 horas 30mn

15.30-16:20 Palavras em torno da Obra de Arte da semana e exploração dos temas emergentes
16:20-16:40 Intervalo (lanche)
16:40—17:30 Discussão da Crítica de Arte da semana e exploração dos temas emergentes

17:30-18:00 Reflexão final e síntese do coletivo sobre a sessão


INÍCIO: 5 outubro 2013


LOCAL

Metáfora
Edifício do Lago I
R. Pinheiro Manso, 662 - 1.º s/1.15
4100 - 411 Porto


PREÇO: 254€

Este valor inclui 10 sessões presenciais, 1 exemplar impresso e autografado de uma compilação de 10 textos de crítica de arte de António Cerveira Pinto expressamente selecionados para AA, blogue de acesso privado sobre o programa, durante três meses, e uma refeição ligeira e bebida por sessão (lanche).


INSCRIÇÕES

Formas de pagamento: 


1 — pronto pagamento (desconto: 10%)
2 — em 2 ou 3 prestações

DESCONTO ESPECIAL

Até dia 15 de setembro a inscrição, a pronto pagamento, terá um desconto de 20%


PRAZO LIMITE DE INSCRIÇÃO

20 de setembro


DESISTÊNCIAS E DEVOLUÇÕES

Até 4 de outubro, a desistência de qualquer participante dará lugar à devolução do valor pago menos uma compensação por gastos administrativos de 50€

Depois desta data não haverá devoluções dos valores pagos por eventuais desistências, salvo em casos justificados e como tal aceites pela entidade organizadora.


CONTATOS

Email: geral.metafora@gmail.com

Telefone: 22 610 42 83




Flyer para imprimir (pdf). Dobrar em 4 antes de distribuir :)