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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Arte aumentada — os universos de André Sier

ANDRE SIER
Skate.Exe, Hero (Eu-Abstracto), 2014 [#A.S.09/14]
Galeria Luís Serpa Projectos

Arte generativa e pranchas de skate

por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

“... how to transform a computational sublime, a data sublime, into forms that are amenable to our limited simian brains.” — Nick Srnicek (1)

Fala-se cada vez mais de uma geração Pós-Internet, ao mesmo tempo que as noções de ‘glitch’ e ‘bending’ são consagradas como modos banais de interferência e reciclagem das linguagens e dos hábitos de usabilidade das interfaces digitais. Em 20 anos (1994-2014) passámos das BBS monocromáticas, do ASCII, dos fax modems e do HTML para uma tecnosfera mediática imersiva e multimodal, de banda larga e wireless, onde a chamada arte experimental e tecnológica progrediu a grande velocidade, separando, por assim dizer, os usuários e os utilizadores de ferramentas cada vez mais intuitivas, dos escritores de código que criam e/ou modificam linguagens binárias, nomeadamente para desenvolverem aplicações generativas que por sua vez suportam eventos audiovisuais, interativos ou não, imagens. sons, esculturas, ou live code perfomances, cuja natureza é filha dileta de uma longa tradição: a tekné.

É certo que também os derivados ideológicos e burocráticos da arte conceptual proliferaram nas últimas duas décadas, nomeadamente sob a influência dos cultural studies e da noção sociológica e/ou antropológica de agency.

É também certo que o mais recente movimento filosófico, conhecido por Realismo Especulativo (2), começa a penetrar no campo especulativo da arte, i.e. da Estética, ao ser adotado por alguns descendentes da arte pós-duchampiana e pós-Dada —uma confluência de neo-zombies hegelianos, neo-neo-realistas marxistas, cadáveres infelizes da linguística a la Saussure e da psicanálise lacaniana, todos ainda em busca do tempo perdido e da salvação.


ANDRE SIER - Skate.Exe (2014)
Galeria Luís Serpa Projectos


Entre a angústia artística que sobrevive nas várias prisões da teleologia moderna e a reflexão crítica sobre a necessidade e definição da arte nas sociedades industriais e pós-industriais, existiu sempre e prossegue a invenção e produção de textos, desenhos e mapas cujo único propósito é conferir subjetividade ao que é objetivo.

Neste campo particular da arte, o da sua praxis ou tekné, os processos criativos e produtivos relevam de uma complexidade cognitiva crescente, irrefutável e porventura irreversível enquanto continuarmos na atual galáxia tecnológica e energética.

É esta complexidade não fortuita, não arbitrária, mas, por assim dizer, evolutiva em sentido biológico propriamente dito, que vale a pena analisar e discutir.

As obras de arte generativa tecnicamente complexas são escritas para viverem toda a sua vida no magma das linhas de código, bibliotecas digitais, automata e algoritmos, que cresce a uma velocidade exponencial e onde milhares de milhões de seres humanos mergulham cada vez mais fundo e por períodos cada vez mais prolongados. Esta circunstância conduz inexoravelmente a uma mudança de paradigma na definição, na ideologia e no consumo das manifestações estéticas que caracterizam os mundos multimodais onde vivemos.

É sobre isto que vamos conversar tomando a exposição Skate.Exe como ponto de partida.

CONVERSA À VOLTA DA MESA
com: ANTÓNIO CERVEIRA PINTO, ANDRÉ SIER, JOHN KLIMA
GALERIA LUÍS SERPA, Lisboa
9 dezembro 2014, 19:00-21:00


NOTAS
  1. Srnicek, Nick. “Accelarationism—Epistemic, Economic, Political”, in Speculative Aesthetics, Urbanomic, 2014.
  2. No teatro exangue do historicismo teleológico e do solipsismo narcisista que varreu a Filosofia europeia (continental, como lhe chamam os ingleses) ao longo dos últimos duzentos anos de anti-realismo (Hegel, Marx, Freud), uma nova luz de racionalismo fundado no reconhecimento da precedência da matéria (e da contingência) sobre o pensamento parece ter despertado em Paris, do teclado de um jovem filósofo chamado Quentin Meillassoux. Curiosa, ou mesmo fascinante, é a rapidez com que a comunidade de jovens pensadores de língua inglesa abraçou este vedadeiro tour de force na Teoria do Conhecimento, ainda nos seus primórdios. Recomendo vivamente o conhecimento destas deambulações filosóficas novas, nomeadamente através da revista Collapse, e dos quatro livros que estou a ler deste o verão: Quentin Meillassous—Après la Finitude. Seuil, 2006; Françõis Laruelle—From Decision to Heresy. Urbanomic, 2012; Coletânea organizada por Levy Bryant, Nick Srnicek e Graham Harman—The Speculative Turn, Continental Materialism and Realism. re.press, 2011; e Coletânea editada por Robin Mackay, Like Pendrell e James Trafford—Speculative Aesthetics. Urbanomic, 2014.
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