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domingo, 13 de julho de 2014

Museu de Arte Contemporânea ou do Modernismo?

A corja não mudou.

Museu do Chiado 2.0 ou...

por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

O Museu do Chiado, no dia em que comemorou os 20 anos do seu renascimento, na sequência de uma grande obra de requalificação da autoria do arquiteto Jean-Michel Wilmotte, propiciada pelo devastador Incêndio do Chiado, promoveu uma apresentação sumária, impressionista e burocrática de resultados, a cargo dos seus últimos cinco diretores, na sequência da qual houve um breve mas intenso debate, abruptamente interrompido pelo moderador Sardo, que não é da casa, não consultou o dono da casa, nem procedeu, como é curial fazer-se neste tipo de diálogos, a última rodada de inscrições entre a audiência participante. Talvez, no fundo, tudo o que era relevante já tivesse sido efetivamente dito. Ou talvez o que eu disse, ou o que acertadamente disse Paulo Henriques, antigo diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, e o mais esporádico diretor que o Museu do Chiado alguma vez teve, tivesse atingido mortalmente o próprio cerne da conversa:

— que públicos espera ter no futuro o Museu do Chiado quando finalmente a sua área se estender para o edifício ainda ocupado pela Polícia, quando receber de Serralves o acervo público de obras de arte contemporânea acumuladas de modo quase familiar ao longo das últimas décadas pela antiga direção-geral da ação cultural e pelo ido Instituto de Arte Contemporânea das antigas secretaria de estado e ministério da cultura, quando, finalmente, deixarmos de entrar no quase ridículo Museu Nacional de Arte Contemporânea por uma espécie de portinhola de serviço, e for possível aceder ao mesmo por uma Entrada digna desse nome, pela Rua Capelo, em pleno coração do bairro cultural mais emblemático da capital?

Apesar da amizade que nutro por David Santos, atual diretor do Museu do Chiado, sempre discordei da ideia estapafúrdia de matar o que deve ser um museu enciclopédico do modernismo português e daquele, estrangeiro, que foi dando à costa, para dar curso às ambições medíocres e sem visão de um pequeno curador em pose de descobridor tardio de uma contemporaneidade que ou já não pode alcançar, ou que já não existe, ou que está noutro lugar. Refiro-me obviamente a Pedro Lapa, responsável por ter lançado a mais completa confusão sobre a identidade do Museu do Chiado. Depois da sua passagem, o museu nem é modernista, nem contemporâneo, mas antes um misto de Kunsthall de mangas encolhidas sem a menor credibilidade curatorial, sem público, e de museu modernista cortado ao meio, tolhido naquilo que deveria ser a sua ambição primordial: edificar no centro de gravidade da modernidade portuguesa de finais do século 19 e de quase todo o século 20 um ambicioso, informado, culto e atrativo monumento a essa mesma modernidade: Rafael Bordalo Pinheiro, Eça, Ortigão, Pessoa, Almada, Santa-Rita, Barradas, Leitão de Barros, Villaret, Lopes Graça, Hogan, Joly Braga Santos, Cesariny, O'Neill, Nikias e um nunca mais acabar de génios locais cujo conhecimento, reconhecimento, estudo e exposição e reencenação apenas faria bem aos artistas portugueses de hoje e à escola de arte que felizmente ainda está onde está, como seria o atrator que falta ao Chiado e ao Bairro Alto para que o turismo que por ali entope ruas e ruelas não se limite aos pasteis de nata ou aos shots e à nouvelle cuisine indígena. Basta andar pelo Chiado para que as memórias e os vestígios materiais e simbólicos de um tempo de metamorfose, de crise, de ousadia e de mudança cultural ressoem das paredes e das calçadas e se entranhem nos poros de quem não for totalmente destituído de tempo ou de cultura. Matar esta alma do lugar em nome de curadorias circunstanciais, sem contraditório, autoritárias mas sem auctoritas, confundindo o papel de comissários independentes com burocratas empertigados que fazem das suas passagens pelas secretarias, museus e fundações meros trampolins para carreiras sem substância, é tudo o que o Museu do Chiado 2.0 não precisa!


Pedro Zamith, pintura


David Santos herdou uma situação envenenada e agrada-lhe a ideia, errada, de misturar o âmago natural do Museu do Chiado com volúveis comissariados de arte contemporânea realizados no tempo que corre. E aduz que a designação —Museu Nacional de Arte Contemporânea— e o acervo que entretanto irá receber de Serralves colocam ao Museu do Chiado uma responsabilidade irrecusável, tanto mais que hoje, digo eu, nem o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, nem a trapalhada provinciana de Serralves, nem as instituições parasitárias do Joe Berardo, da EDP ou do BES, inspiram qualquer confiança nos critérios que têm vindo a seguir, ou sequer, na sua continuidade. Ou seja, estou de acordo com David Santos quando afirma que decorre das atribuições do MNAC responsabilidades que mais nenhuma outra instituição portuguesa tem a obrigação ou está em condições de assumir. Até aqui, tudo bem, mas...

Neste momento temos uma série de instituições pomposas de arte contemporânea —CAM, Museu de Serralves, a coleção de Joe Berardo, em Belém e em Castelo Branco, a penhorada Fundação Elipse, BES-Finança e ainda o anunciado museu de arte contemporânea da endividada e rendeira EDP— todas elas competindo entre si, mais de uma evidenciando promiscuidade indecorosa entre interesses privados e ingenuidade ou corrupção pública, todas servindo de porta-giratória a carreiras pessoais sem história, todas sem autonomia, dotadas de orçamentos ridículos, às moscas! Ora bem, perante tanta profusão de arte contemporânea e curadorias supostamente ousadas, que falta faz mais um museu a expor artistas em fraldas e às vezes mal criados, no Chiado? Não seria mais avisado aproveitar a ampliação do museu da Rua Serpa Pinto para, por uma vez, conferir uma marca clara e rigor a uma instituição do estado capaz de fazer a diferença, em vez de andar, como a concorrência, a macaquear sem meios o que se faz (ou fazia...) em Londres, Berlim ou Nova Iorque? Resta ainda dizer a este respeito que há em Lisboa, no Porto e no resto do país um número crescente de galerias de arte, de espaços alternativos e de grupos de artistas e curadores, quase sempre meios nem mecenato que os acuda, que muito gostariam de ver no Estado um facilitador informado e aberto à diversidade criativa, em vez de mais um concorrente, burocrático e ainda por cima arrogante e falido, para o qual milhões de euros vindos dos pagadores de impostos, dos subsídios de Bruxelas ou da dívida pública, são canalizados sem deixar rentabilidade cultural que se veja.

Prevejo que muita da espuma contemporânea especulativa das últimas três décadas desapareça em breve, fruto de um tempo que acaba e de outro, muito diferente, que desponta. Neste sentido, a missão de um Museu Nacional de Arte Contemporânea, na sua ideologia clássica, de arquivo cuidado e estudado de obras de arte que marcaram e marcam a identidade cultural do país, mas também de escola de gosto e lugar de observação e experiência cultural da cidade e do mundo, é imprescindível nesta, como nas décadas futuras

Há seis qualidades que fazem a diferença entre um museu interessante e amado pelo público e um deserto de ideias onde ninguém vai:
  1. o lugar do museu (forte ou fraco)
  2. o edifício do museu (bom ou mau, neutro ou simbólico)
  3. a coleção do museu (rigorosa e coerente ou burocrática e disléxica)
  4. a autonomia do museu (tudo o que continua a não existir entre nós, fruto da inércia burocrática e do populismo eleitoral que temos)
  5. o diretor do museu (bom, mau, inexistente)
  6. a continuidade do museu (um museu que sucessivamente interrompe a sua atividade ou guina de direção como um bússola desnorteada, é um não lugar)
Acredito que o novo diretor do MNAC tem condições e tempo para responder aos desafios acima descritos. O desafio 5 depende exclusivamente dele. Os 1 e 2 são-lhe altamente favoráveis se souber tirar partido do privilégio do lugar expandido que em breve estará à sua disposição. O 3 é um grande desafio para o qual proponho uma hipótese de solução no diagrama que publico mais abaixo. Os desafios 4 e 6 exigem mudanças drásticas e urgentes da parte da administração pública e da gestão política da cultura. Sem autonomia responsável e supervisionada, e sem continuidade, nada funcionará com um mínimo de dignidade.

Voltando ao problema da coleção e do quão contemporâneo pode ser o MNAC, creio que seria necessário considerar o Museu do Chiado como um dos núcleos modernistas do MNAC, a par do Museu Nacional Soares dos Reis, que deveria constituir o segundo núcleo proto-contemporâneo do MNAC. Seguindo esta metodologia de acréscimo de coerência e racionalização de meios e gestão, o lugar da arte contemporânea pós 1946 necessitaria de outros espaços. No Porto esse lugar já existe, chama-se Museu de Serralves e deveria ser um dos futuros núcleos do MNAC. Em Lisboa, o lugar que obviamente espera ser ocupado pelo segundo núcleo de arte contemporânea do MNAC, ao qual seria desejável acrescentar uma Galeria Nacional de Arte Contemporânea, dedicada às tendências mais recentes da contemporaneidade artística em sentido amplo, e não estreito, seria obviamente o Centro Cultural de Belém, edifício pago pelos contribuintes onde está sediada uma fundação suportada em larga medida pelos mesmos contribuintes, a qual inexplicavelmente continua a servir o interesse privado em vez de servir a comunidade. Não deixa de ser caricato que para se entrar no Museu do Chiado seja necessário pagar um bilhete de 4,50€ (ou 5,00€ no MN Soares dos Reis), enquanto a entrada no Museu Berardo é grátis!

Esta visão arquipelágica do MNAC, que deveria incluir ainda um Museu Nacional de Fotografia e do Cinema, é a que, do meu ponto de vista, poderá satisfazer os seis critérios acima descritos e simultaneamente preparar a instituição cultural portuguesa para a austeridade que veio para durar. É possível adaptarmos o sistema invertebrado da museologia pública nacional aos constrangimentos financeiros e fiscais de um estado que tenderá a ser mais pequeno e mais racional. Porém, quanto mais tarde decidirmos, quanto mais complacentes formos para com a pastosa baba burocrática e as situações indecorosas que persistem, mais dolorosas e drásticas terão um dia que ser as inevitáveis emendas do atarracado monstro museológico indígena.

E se alguém pensar que a coisa vai lá mudando apenas de secretário de estado para ministro da cultura, desenganem-se. Tivemos ministros da cultura de sobra e, por outro lado, nenhuma das principais potências culturais do planeta tem ministério da cultura: Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Japão, Áustria, Suíça ou mesmo a Holanda.

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