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terça-feira, 8 de julho de 2014

Museu do Chiado ocupado numa noite de verão

Ocupação do Museu do Chiado, Lisboa (4-5/6/2014)
Foto Facebook

 

Quem se mete com meninos acorda molhado

Por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Portugal
PIB per capita (2013) 15.842,2 euros
Remunerações do trabalho per capita (2013): 7.641,6 euros
Salário médio líquido (2013): 984 euros/mês; 13.776 euros/ano
Salário médio anual dos trabalhadores temporários (2013): 6.984 euros/ano
Salário mínimo (2014): 485,0/mês; 6.790 euros/ano
Pensão média da Segurança Social (2012): 4.135,1 euros/ano
Dinheiro gasto pelo museu na produção da obra e exposição de Rui Mourão (incluindo a publicação da sua tese de mestrado com design de luxo): 8.000 euros.

A ação promovida pelo artivista Rui Mourão durante a inauguração da exposição para que foi convidado pelo Museu do Chiado (vídeo), uma entidade 100% pública, dirigida por David Santos, que para esta instituição transitou após concurso, depois de vários anos à frente do Museu do Neorrealismo, em Vila Franca de Xira, é uma típica manifestação daquilo a que poderíamos chamar a política rasca dos meninos e meninas desmioladas e mimadas de uma democracia falida. Não deixa de ser sintomático que a ação realizada nas costas do museu e da comissária da mesma, tenha contado com a presença antecipada dos média no que evidentemente foi uma conspiração e quebra grave de contrato. Os média relatam ou fazem parte da ação?

Comportamento rasca #1: não se morde a mão de quem nos dá de comer, e se para o artivista Rui Mourão oito mil euros por uma única tarefa é poucochinho, deveria ter recusado o convite, pois haveria certamente algumas centenas de artistas desejosos de ocupar o seu lugar. Rui Mourão traíu a confiança de um jovem diretor de museu, sério e que goza de grande apreço entre a geração de artistas que sucedeu àquela que durante mais de vinte anos ocupou todos os poros institucionais da cultura contemporânea indígena, bloquenado enquanto pôde a geração que David Santos tem vindo a defender pela sua ação conhecedora e ponderada. Do ponto de vista legal, e sobretudo da decência, Rui Mourão rompeu unilateralmente um contrato e insultou a instituição que o acolheu. Se eu fosse diretor do Museu do Chiado a sua exposição teria sido imediatamente encerrada. Creio mesmo que o responsável governamental pela instituição —Jorge Barreto Xavier— não terá outra alternativa se não seguir este procedimento, sob pena de abrir caminho à transformação da arte portuguesa em mais um sindicato de artistas funcionários semi-públicos mal criados.

Comportamento rasca #2: o artivista Rui Mourão acha que o estado deve alimentá-lo a ostras e caviar, em nome da cultura, e dos direitos de dois milhões de pobres que têm o direito de ver gratuitamente as suas ocupações de museus porque, diz ele, é um contribuinte líquido. É? E já agora, quem pagará a gratuitidade dos museus se os artistas que supostamente devem criar a riqueza de que os museus se alimentam são os primeiros mandriões que fazem da caça ao orçamento, e não da arte, a sua verdadeira especialidade? Em que se distingue o artivista Rui Mourão do resto da corja rendeira, devorista e partidocrata que condena? Não foi a caça ao tesouro orçamental sobre endividado que nos trouxe até aqui?

Comportamento rasca #3: o artivista Rui Mourão poderia ter lançado a sua diatribe no público CCB, que continua a servir escandalosamente o concubinato cultural sórdido do tempo do 'socialista' José Sócrates (sem incorrer em quebra de contrato ou de confiança), ou no Centro Comercial Colombo que é da mesma Sonae que condena por financiar à sua maneira a sala onde precisamente montou o seu estendal, ou ainda no BES Arte & Finança, por razões óbvias de oportunidade. Poderia, por exemplo, dirigir uma simples carta ao 'socialista' António Costa perguntando-lhe quanto pagou ou tenciona pagar, com o dinheiro que os contribuintes de Lisboa não têm, pela coleção de design e moda do MUDE, adquirida a um único colecionador. Mas não, preferiu atacar uma instituição sem orçamento, indefesa, apunhalando pelas costas a boa fé do seu diretor. Foi mais fácil, não foi? Mas agora temos um problema novo nos museus e centros de arte do país: vai ser necessário redigir um contrato-tipo para todas as exposições que vierem depois deste ato de descarado oportunismo e carreirismo.

Rui Mourão reclama a existência de um ministro da cultura, e até ensaiou a turma ensonada que o acompanhou na sua rasquíssima performance a repetir em coro este choro tipicamente infantil e próprio de meninos e meninas mimadas para quem pensar não costuma ocupar os seus tempos livres. Saberá o artivista traiçoeiro e a turma de sindicalistas culturais que acampou no museu que os países culturalmente mais produtivos e marcantes deste planeta —Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Suíça, Áustria e Japão— não têm ministérios da cultura? Então ocupa-se um museu público para exigir um ministro da cultura? Quem vos encomendou o sermão?!

Por fim, saberão os campistas do Museu do Chiado que os cortes na cultura têm ocorrido na maioria dos países europeus com tanta ou mais virulência que em Portugal? E se sabem, ou se o artivista Rui Mourão sabe, pois até escreveu um livro, não seria razoável pensarmos todos numa discussão mais informada e mais educada sobre o assunto?

Uma leitura a propósito...

We should allow failing arts organizations to die.
A debate that began (for me) nine months ago, finally gets real at #aftacon.
By Devon Smith on Jun 15 - M

Agree or disagree: we should let arts organizations that don’t adapt die.

Arts organizations are already dying. In Detroit, in New York City, in the UK. From operas to art galleries. This is no longer an urban versus rural debate. A nonprofit versus for profit debate. A “one discipline is dying” but “others are inexplicably thriving” debate.

This is a simple acknowledgement that the industry represented by the people and organizations in this room, is in decline. And I think that not only should we allow it, we should encourage it.

Ocupação do Museu do Chiado, Lisboa (4-5/6/2014)
Foto Facebook

A arte sujeita à condição pós-moderna tornou-se um complexo industrial, de serviços e de consumo de massas — o que muda quase tudo!

Nos últimos quarenta anos, ou seja desde a década de 1970, que as sociedades industriais em fase de terciarização acelerada se deparam com um problema social novo: o desemprego estrutural causado, nomeadamente, pela extraordinário aumento da produtividade das tecnologias e métodos de gestão. Este problema agravou-se a partir de meados dos anos oitenta do século passado, com a emergência de grandes países, sobretudo em termos demográficos, como a China, a Índia, a Nigéria e o Brasil, entre outros. Quase tudo, incluindo o design e a arte, começaram a ser produzidos nestas novas geografias a custos incomparavelmente mais baixos. Qual foi então a resposta americana e europeia a este desafio? Basta ler o premonitório livro The End of Work (1995), de Jeremy Rifkin, para o sabermos. Na realidade, os poderes políticos resolveram apostar em duas cartas: educação e formação profissional permanentes e financiamento do consumo. As distorções desta economia artificial acumularam-se paulatinamente até formarem uma bolha especulativa monumental. Desde 2006 que a bolha começou a rebentar. Já vamos em oito anos de colapso económico, financeiro, social e cultural. Porque as causas não são as que a espuma populista dos partidos da nomenclatura fazem crer aos cidadãos para lhes arrancar votos (cada vez menos, aliás), a obrigação dos intelectuais, dos cientistas e dos artistas, pela exigência livremente assumida das suas missões, é olhar para as dificuldades de uma maneira diferente, desinteressada, sem o que a metamorfose em curso será ainda mais dolorosa, e porventura mortal.

Da convocatória publicada no sítio do Museu do Chiado
Inauguração da exposição OS NOSSOS SONHOS NÃO CABEM NAS VOSSAS URNAS no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, sexta-feira, 19h.

O projeto que Rui Mourão expõe no MNAC - MC (comissariado por Emília Tavares), consiste num conjunto de videoinstalação + livro + performance.

Na inauguração será lançado o livro "Ensaio de Artivismo (vídeo e performance)" escrito por Rui Mourão (com apresentação de David Santos e um texto da curadora Emília Tavares).

A performance a realizar na inauguração contará com a colaboração do Colectivo Negativo.

"O título – OS NOSSOS SONHOS NÃO CABEM NAS VOSSAS URNAS – é uma apropriação de um slogan de protesto, repetido em cartazes levantados na Acampada do Rossio em 2011, movimento que direta ou indiretamente marcou o percurso de muitos dos atores e impulsionadores das 10 performances artivistas ocorridas em Lisboa entre 2008 e 2013 reunidas nesta vídeoinstalação, juntamente com outras tantas entrevistas realizadas e gravadas com protagonistas das ações abordadas e que relatam, na primeira pessoa, os respetivos posicionamentos e interpretações. Fruto de um trabalho de investigação de campo, acompanhando e filmando ativistas nas suas ações, esta vídeoinstalação permite esboçar uma etnografia de práticas e agentes de contestação ao nível dos chamados novos e novíssimos movimentos sociais e, simultaneamente, percecionar as analogias existentes entre as estratégias de dissensão no âmbito do protesto político no espaço público e as dissensões formais do campo artístico. São essas estratégias – artivistas – vindas do exterior do sistema institucional, que apostando na criatividade, na emoção, na comunicação e no inesperado, permitem a qualquer pessoa motivada tornar-se num ator político a ocupar a esfera pública."

Rui Mourão, in "Ensaio de Artivismo (vídeo e performance)". Lisboa: MNAC-Museu do Chiado, 2014 (no prelo).

"Rui Mourão reafirma uma postura artística que é ela também de resistência ao senso comum e da aptidão da arte contemporânea para ser um processo de compromisso social. Sobre o resultado desse processo ainda muito haverá a avaliar, mas para já, as dissensões que este trabalho expõe deixam como possibilidade a resiliência aos ditames que o sistema das artes espera dos artistas, “que operem críticas construtivas do sistema mas não ameacem as instituições públicas, as classes hierárquicas e outros legados do liberalismo burguês; que intervenham na cultura mas não pareçam agressivos ou seriamente preparados para lutar pela igualdade política.”(Lipovetsky, Gilles, Serroy, Jean, L’Esthétisation du Monde: vivre à l’âge du capitalisme artiste. Paris: Gallimard, 2013, p. 435)"

Emília Tavares, in "Ensaio de Artivismo (vídeo e performance)". Lisboa: MNAC-Museu do Chiado, 2014 (no prelo).

A exposição estará patente até dia 28 de setembro, 2014. Terça a domingo, 10 - 18h.

Ver link do museu

Ocupação do Museu do Chiado, Lisboa (4-5/6/2014)
Foto Facebook

Post scriptum

A quebra de confiança protagonizada pelo artivista Rui Mourão, além de favorecer objetivamente aqueles que arruinaram o país e asfixiaram a disseminação da cultura portuguesa no mundo (tal a insistência em tentar demonstrar que apenas tínhamos dois artistas medíocres e oportunistas: Sarmento e Cabrita Reis), é o exemplo de uma ação inqualificável de promoção pessoal, sobretudo para consumo externo, numa tentativa desesperada de furar o bloqueio referido. Confundir exibicionismo e oportunismo mediático a qualquer preço com arte é um caminho hoje muito trilhado, típico de uma cultura propagandística que corre atrás da notícia e mais recentemente dos LIKES. No entanto, à medida que o tempo dos média se torna circular, e uma nova instância do eterno retorno regressa, a decantação recomeça: GARBAGE IN/ GARBAGE OUT.


Atualização: 10/7/2014, 16:04 WET

2 comentários:

  1. Este texto parece-me profundamente reacionário e muito mais pessoal do que crítico. É um texto grave, mal escrito e mal intencionado e que oculta o facto de Rui Mourão não ter recebido dinheiro pelo trabalho. A presunção de que o artista deve trabalhar à borla e não se revoltar apenas porque sim, porque o regime está acima de tudo, é de uma concepção do fazer artística profundamente primária. O incomodo causado é irrelevante. A arte de museu é quase toda irrelevante e rasca, pelo menos a portuguesa. A nulidade do discurso rivaliza apenas com formalismos velhos e ultrapassados que se concretizam em cópias de cópias de cópias de cópias. Situação de que o autor do texto é também um exemplo. Se queria polémica cá está. Feel free not to publish.

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  2. A sua crítica só contém uma afirmação factual, e uma presunção. Facto: o artista não recebeu dinheiro pelo seu trabalho. Presunção: o artista trabalhou à borla. Ambas são erradas:

    1) o artista não recebu dinheiro para o seu bolso, é verdade, mas recebeu dos contribuintes e do patrocinador Sonae o financiamento da produção da sua peça, da edição (entregue a um designer) da sua tese de mestrado, e a manutenção da exposição enqunto a mesma durar (manutenção correspondente ao espaço que ocupa no museu, do edifício, gastos correntes de energia, água, telecomunicações, segurança, seguros, curador da exposição, guias e pessoal técnico e administrativo) — o que no conjunto perfaz bem mais dos que os OITO MIL EUROS de despesa suportada por faturas pagas pelo museu a quem o artista indicou como seus fornecedores;

    2) O artista não estabeleceu nenhum contrato de trabalho com o museu, nem com a SONAE, (nem faria sentido que o fizesse!) mas desenvolveu um projeto cujos gastos de produção e apresentação foram pagos pelo museu, ou seja, pelos contribuintes, acrescendo que a obra de 'artivismo' produzida pertence a Rui Mourão, que a pode vender a quem quiser, não cobrando o museu qualquer comissão sobre uma tal hipotética venda. Isto é, se e quando o artivista Rui Mourão vender o produto da sua criação, cujos custos de produção foram suportados pelos contribuintes, será remunerado pelo seu trabalho ficando ainda com o lucro da operação. A este propósito lembro que outros museus, bienais, galerias de arte, etc., noutras partes do mundo, acautelam estas situações celebrando contratos com os artistas por forma a recuperarem os investimentos em produção das obras de arte assim que as mesmas sejam vendidas pelos artistas ou pelos seus representantes comerciais.

    Finalmente o ponto crítico disto tudo é outro: Rui Mourão aceitou livremente fazer uma peça para expor no museu do Chiado, tendo acordado os termos dessa produção/apresentação com o diretor do museu e com a comissária da mostra. Deste acordo não constava uma ocupação do museu. Logo, a ocupação foi uma demonstração de má fé negocial, uma rotura de contrato, e um ato cultural oportunista da pior espécie — tanto mais que foi previamente soprado à comunicação social. Como artista, não me reconheço neste tipo de comportamento, e por isso o denunciei e denuncio.

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