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domingo, 30 de março de 2014

Sebastiao Resende


Arqueologia do efémero

Por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO

Sebastião Resende — 'Fecit Potentiam', uma instalação irónica sobre a natureza ambígua dos chamados 'museus de arte contemporânea', que, na realidade, são os lugares por excelência do espetáculo das artes sob o efeito intenso das modas que passam, e onde a especulação financeira que alimenta o valor imaginário dos objetos temporários da arte compra a necessária legitimidade, com a colaboração paga dos escribas de serviço. A obra principal desta exposição é uma maqueta sumária do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, que foi estrategicamente povoada com casulos de bichos da seda (Bombyx mori) que por lá viveram a sua metamorfose. O que se expõe é, assim, a memória arqueológica de uma ilusão. Um artista não precisa de produzir muitas obras, nem de fazer muitas exposições. Uma só obra de arte, desde que seja simultaneamente intuitiva e inteligente, basta para fazer a diferença e deixar um testemunho honesto às gerações futuras. É o caso desta 'Fecit Potentiam'.



Texto de apresentação da exposição [por Sismógrafo]

“Fecit potentiam” é o título da exposição de Sebastião Resende (Oliveira de Azeméis, 1954) patente no Sismógrafo de 8 de Março a 5 de Abril de 2014. Com curadoria de Óscar Faria, a mostra é composta por um conjunto de trabalhos inéditos – escultura, fotografia e instalação –, que não só prolongam as linhas de pesquisa anteriormente desenvolvidas pelo artista, mas também revelam um novo corpo de investigação: uma alegoria acerca das metamorfoses da arte e da vida realizada a partir do acompanhamento do processo de transformação do bicho-da-seda depois de invadir maquetas de museus. As obras agora reveladas podem ser ainda interpretadas como um comentário aos paradoxos e contradições inerentes a um tipo de arte de pendor conceptual, que, apesar de fazer da ideia e da linguagem os seus domínios, não deixa, contudo, de sentir o apelo pela produção de objectos. Na primeira sala do Sismógrafo, Sebastião Resende propõe duas esculturas de grandes dimensões, sendo que numa delas o artista integrou uma série de terras e areias provenientes de várias geografias – de Cabo Verde à Palestina. Este trabalho é colocado em diálogo com oito fotografias, as quais, tomando como modelo as imagens habitualmente realizadas por instituições museológicas, revelam os materiais ocultos no interior da peça escultórica. O espaço seguinte é totalmente preenchido pela obra que dá título à exposição. “Fecit potentiam” é uma instalação composta por uma maqueta – onde se reconhece o Museu de Arte Contemporânea de Serralves –, imagens que documentam diferentes fases da sua realização, sons e um “atlas” dedicado à bombyx mori, o nome latino da mariposa com origem na larva mais comumente conhecida como bicho-da-seda.

Inspirada no título de um dos movimentos do “Magnificat”, de J.S. Bach, precisamente intitulado “Fecit Potentiam”, a exposição de Sebastião Resende traduz assim uma vontade de transgressão dos limites, sociais, institucionais, económicos, que ainda continuam a condicionar quer o fazer artístico, quer os modos de acesso e transmissão de um saber em constante mutação. Ao olhar-se para as marcas, resíduos e matérias orgânicas que ainda habitam a maqueta exposta no Sismógrafo, não pode deixar de pensar-se numa desejada e heterodoxa ocupação de um espaço, o museu, cada vez mais sujeito a uma condição de mausoléu. Como se lê no Cântico de Maria, contido no Evangelho Segundo São Lucas, o texto que serviu de base para o compositor alemão estruturar a sua peça e aqui apropriado como metáfora do acto criativo: “Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.” Há uma potência a realizar. O exemplo vem-nos da curta vida de uma larva, que se transforma em mariposa, para logo morrer. Como refere Giorgio Agamben: “Nós devemos ainda medir todas as consequências dessa figura da potência que, doando-se a si mesma, se salva e cresce no ato. Ela obriga-nos a repensar do zero não apenas a relação entre a potência e o acto, entre o possível e o real, mas também a considerar de uma forma nova, na estética, o estatuto do ato de criação e da obra, e na política, o problema da conservação do poder constituinte no poder constituído.”


Introductory text for the exhibition [by Sismógrafo]

“Fecit potentiam” is the title of the exhibition by Sebastião Resende (Oliveira de Azeméis, 1954), at Sismógrafo from the 8th of March to the 5th of April 2014. Curated by Óscar Faria, the show is comprised by a collection of unseen works – sculpture, photography and installation –, that not only extend the lines of research developed previously by the artist, but also reveal a new body of investigation: an allegory about the metamorphoses of art and life made possible through the accompaniment of the transformation of the silkworm while it inhabits museum mock-ups. The works now revealed could furthermore be interpreted as a commentary on the paradoxes and contradictions inherent to a type of art of conceptual slant, that, even by making ideas and language its dominium, does nevertheless stop feeling the appeal for the production of real objects. In the first room of Sismógrafo, Sebastião Resende proposes two sculptures of great dimensions, being that in one of them the artist has integrated a series of soils and sands from various geographies – from Cape Verde to Palestine. This work is placed in dialogue with eight photographs, that, taken the images usually produced by institutional museums as a model, reveal the materials hidden in the interior of the sculptural piece. The next space is completely occupied by the work which also names the exhibition. “Fecit potentiam” is an installation comprised by a mock-up – where we recognise the Museum of Contemporary Art of Serralves –, images that document the different stages of its conception, sounds and an “atlas” dedicated to bombyx mori, the latin name of the moth that originates from the larvae most well known as silkworm.

Inspired on the title of one the the movements from J.S.Bach’s “Magnificat”, precisely entitled “Fecit Potentiam”, Sebastião Resende’s exhibition translates somehow a will to transgress social, institutional and economic limits, which still condition both artistic practice and the modes of access and transmission of a knowledge in constant mutation. Looking at the marks, residues and organic mater that still inhabit the mock-up shown at Sismógrafo, we cannot but wonder of a desired heretical invasion of a space, the museum, more subject than ever to a mausoleum condition. As written in the Canticle of Mary, from the Gospel of Luke, the text that served as a basis for the german composer to structure his piece and here appropriated as a metaphor for the creative act: “He hath shewed might in his arm: he hath scattered the proud in the conceit of their heart. He hath put down the mighty from their seat, and hath exalted the humble. He hath filled the hungry with good things; and the rich he hath sent empty away.” There is a potential to achieve. The example comes from the short life of the larvae, that transformes into moth, to soon die. As Giorgio Agamben refers: “We should still measure all the consequences of that figure of potential, which, in the act of giving up to herself, is saved and able to grow. She makes us rethink from scratch not only the relation between the potential and the act, between the possible and the real, but also to consider in a new way, in aesthetics, the status of the act of creation and completion of a work, and, in politics, the problem of the conservation of constituent power in the power constituted.”

artista/ artist: Sebastião Resende
título da exposição/ title: Fecit Potentiam, 2014
curadoria/ curator: Óscar Faria
local/ venue: Sismógrafo
morada/ address: Praça dos Poveiros, 56
1º andar, salas 1&2
4000-303 Porto, Portugal
mail@sismografo.org
www.sismografo.org
datas: 8 Março/March a 5 Abril/April 2014

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