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quinta-feira, 3 de maio de 2018

ARCO Lisboa, um problema de ética institucional

Carlos Farinha. Pintura.


A intolerância perante a figuração pós-tecnológica é inaceitável



As obras dos artistas Carlos Farinha e Rui Serra valeram a Portugal ser dos poucos países representados na edição deste ano do Art Beijing, uma das mais concorridas feiras de arte organizadas na China, que terminou hoje. DN

A galeria Arte Periférica, com sede no Centro Cultural de Belém, pode participar no Art Beijing, mas não pode entrar na ARCO Lisboa: um evento de escassa afluência, altamente subsidiado pelo erário público português e que é, sem margem para dúvidas, uma intrusão muito discutível da ARCO Madrid no 'nosso' mercado e na esfera própria das instituições de arte lisboetas e portuguesas. Percebo que os espanhóis queiram penetrar e se possível dominar o mercado de arte na região atlântica do sul da Europa, América e África lusófonas. Não percebo, porém, o comportamento dos decisores públicos do meu país.

A ARCO de Madrid, em Lisboa, conta com apoios diretos consideráveis da República Portuguesa, da dgARTES (Ministério da Cultura), da Câmara Municipal de Lisboa (e da EGEAC), da Fundação EDP (mecenas), da Fundação Millennium BCP, etc., e ainda de apoios indiretos vários, como os decorrentes das compras realizadas e a realizar pelo Museu de Serralves, entre outros. Alguém consegue imaginar uma ARCO de Madrid assim, em Barcelona? Eu não! 

O lóbi local dominante da chamada arte contemporânea exerce há décadas um boicote e uma censura institucionais contra vários artistas portugueses, nomeadamente contra a artista Joana Vasconcelos—que pode expor no Palácio de Versailles, no Palácio da Ajuda, na Bienal de Veneza, ou em breve, no Guggenheim de Bilbao, mas não pode expôr no Museu de Serralves, nem na Culturgest, verdadeiros santuários de intolerância estética onde continuam a pontificar aves raras como os artistas Julião Sarmento e Pedro Cabrita Reis, ou curadores e críticos com várias pernas, como Delfim Sardo e algumas criaturas ainda mais insignificantes. Que tal expor de uma vez por todas esta escandalosa situação? Ou mesmo sugerir uma comissão de inquérito parlamentar à ética das instituições do Estado português, ou dele dependentes, que operam na chamada arte contemporânea? Existem regras? Quais?


Zeng Fanzhi. Mask Series N.5


Vendo o que foi a ARCO Madrid ao longo das décadas, ninguém em seu bom juízo consegue explicar os critérios de acesso, convite e de censura descarada praticados pelos organizadores da ARCO Madrid em Lisboa. A prepotência polida é evidente. O chega pra lá endinheirado é insultuoso, especialmente nos tempos que correm, e especialmente entre os artistas que desesperam por uma procura que não chega, como se o acesso às artes precisasse cada vez menos das obras materiais e se bastasse com as suas evanescências virtuais. Quem decide, compra e vende, afinal só especula, e em geral não sabe o que faz. Daí a necessidade de um debate democrático sobre estas coisas.

Não morro de amores pela pintura de Carlos Farinha, como também não aprecio especialmente embora entenda boa parte da pintura chinesa contemporânea. A arte chinesa passou a valer milhões porque a China de hoje vale biliões. Foi sempre assim o mercado das artes e a especulação em geral. Mas o meu gosto, neste caso, é irrelevante, e acima de tudo não me dispenso a curiosidade de saber quem são estes artistas, porque pintam como pintam, e porque chegam a um significativo número de pessoas e mercados. Numa era tão marcada pela comunicação visual, pela caricatura e pela ilustração, pelas famosas gravuras japonesas das não menos famosas imagens do mundo flutuante (Ukiyo-e), pela banda desenhada, pelo anime e pela manga, pelos desenhos animados, ou pelos efeitos especiais e pelos emoticons, nada mais natural do que a pintura pós-contemporânea, japonesa, chinesa ou portuguesa traduzirem um renascimento da figuração humana e natural no campo das chamadas artes plásticas, ou visuais. No caso da China, é sobretudo a pintura que recupera o universo budista da representação, e não vive apenas dos epígonos da arte moderna ocidental (Pop, Conceptual, etc.), a que mais relevância e afinal originalidade possui. Também são as obras de autores portugueses como Joana Vasconcelos, Pedro Zamith, ou os gémeos Carvalho, Daniela Viçoso, e ainda Carlos Farinha, que nos situam na verdadeira paisagem artificial que hoje nos engole. Não é pois acidental que tais artistas atraiam tantos fãs. E que, na China, como no Japão, estas manifestações de uma arte low brow sejam afinal responsáveis por uma economia de  milhares de milhões. Em Portugal, pelo contrário, o peso de uma cultura palaciana preguiçosa e burocrática continua a emperrar a economia e a história, empurrando estes geradores frenéticos de imagens para a semi-clandestinidade. Só assim se percebe que as pinturas chinesas pós-contemporâneas valham o que valem, e as nossas, quase nada.

Em contraponto gritante à retórica pós-conceptual dominante nos corredores do poder artístico local, o regresso da figuração à arte pós-tecnológica que se faz em Portugal, nomeadamente na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, deve-se muito, creio, ao professor Carlos Vidal. Nesta torrente da figuração pós-Pop, devedora de um indisfarçável fascínio pela manga japonesa e pela indústria benjamininana da imagem, nomeadamente das que se movem e são geradas por computador, há de tudo, bom e mau. Mas o que não deve haver é uma censura desta emergência criativa genuína por parte das elites provincianas.

Esta é uma discussão que vale a pena ter, num tempo em que a estética se tornou omnipresente, mas já não é propriedade privada dos fariseus que confundem arte com mistérios de cozinha, ou de filosofia. 


Carlos Farinha numa conta do Pinterest

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