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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Memória do efémero

©Foto: ACP — Cravinas, 2010


Pregar às universidades


por ANTÓNIO CERVEIRA PINTO


I


O grande paradoxo das novas tecnologias é que o processo de abstracção sucessiva e incremental de que são portadoras tem um limite material bem definido, de que fazem parte vários recursos naturais e condições ambientais que se aproximam rapidamente da exaustão. Ou seja, se por um lado, grande parte da realidade exposta através dos média “benjaminianos” é pura ficção ideológica e instrumental, e portanto uma mistificação simbólica, ainda que construída e consumida como a “realidade mesma” e “presença”, por outro, começámos há algum tempo a perceber que do fim inevitável deste ciclo de metáforas pouco ou nada ficará para a História, pois esta também morrerá, e o seu possível renascimento terá forçosamente que partir do nada, i.e. de uma acumulação ininteligível de ruínas, entre as quais, as mais incompreensíveis serão, precisamente, as tecnológicas.


II


Estive na Madeira, mais precisamente no Funchal, para participar num debate sobre a memória —e em particular sobre a memória cultural, a memória das artes, a memória do sentido do belo e do belo sentido— tendo por pano de fundo as omnipresentes tecnologias digitais.


Entre as comunicações mais marcantes anotei a leitura de Nuno Crespo, crítico e professor de estética em Évora (uma tão elegante quanto tardia, e errada, retoma do formalismo estético Kantiano), e anotei a exposição do arquitecto Paulo David (sobre alguns trabalhos seus). Conseguimos escapar dos remoinhos locais e das quase inevitáveis auto-flagelações sociológicas. O dia passou a correr, e fiquei com a sensação de que poderia ter lá estado em Skype, poupando tempo e recursos, a mim e à comunidade.


Na realidade, a discussão para a qual fui desafiado pelo Hugo Olim, docente do Centro de Competência Artes e Humanidades, da Universidade da Madeira, foi tão só aflorada, ficando quase tudo por dizer e discutir. Precisava dum dia inteiro para expor em linha recta argumentos e factos em abundância, até impregnar a audiência de problemas, perplexidades, e perguntas à flor da língua. E teria precisado de mais um dia, ou dois, de 12 horas cada, para discutir com todos e cada um as implicações dos meus cenários catastróficos.


Estamos no fim de um tempo longo. O Ocidente esvai-se no horizonte de onde um Sol nascente outrora improvável e inaudito ganha forma, mas uma forma que não reconhecemos, que nem sequer, às vezes, conseguimos ver, ao contrário do que determina o equivocado apriorismo kantiano.


No fundo, eu nunca falo se não do que em cada momento ocupa o meu contínuo filosofar. E a questão da extinção tecnológica que precederá de forma abrupta e trágica a própria extinção de um grande ciclo histórico de civilização e barbárie humanas, é uma tema fascinante e grávido de consequências práticas sobre as quais é o tempo certo de pensar, sobretudo agora, que os modelos da educação e da certificação em massa parecem ter os dias contados. Eu contraponho, à educação burocrática de Bolonha, o regresso às escalas comunitárias dos saberes. Eu contraponho, à atomização dos saberes, dos certificados e das competências, a necessidade de comungarmos novas linguagens de síntese cognitiva, e estéticas partilháveis por todos. A atomização dos seres e dos fazeres foi a maior e mais sofisticada armadilha lançada pelo Capitalismo ao âmago das democracias. Os especialistas não passam hoje de peças isoladas e substituíveis da lógica cibernética da produtividade e da exploração. Só quando o desemprego destes acabar por se tornar dramaticamente presente, perceberemos plenamente o escândalo da manipulação e ilusão de que fomos vítimas.


Estamos atolados no mito da genialidade contemporânea. E o mais ridículo de tudo é que em vez de nos recordarmos das lições que o passado encerra, andamos entretidos a fabricar memórias do presente, e registos solipsistas para memória futura. Esta arrogante presunção da nossa essência “contemporânea” é uma espécie de veneno que tomamos sem saber que o é, e sem pensar nas consequências. O indivíduo de que estas sombras são manifesto, é uma praga. Temos que regressar à comunhão dos corpos e das almas, ou seja, temos que trabalhar para a criação de comunidades pós-contemporâneas, por contraposição ao ilusório progresso e presente perpétuo de que se tem feito a ideologia da contemporaneidade.


Precisamos de tempo para passear, conversar e meditar. Temos que reaprender o caminho paciente da clarificação das ideias, dos olhares e das sensações.


Uma proposta: transformar os museus e centros falidos da arte contemporânea, que são aos milhares, em mosteiros tecnológicos —não no sentido de acumulações insensatas de novidades tecnológicas, nem muito menos de palcos de exibicionismo científico, mas antes, como lugares da τέχνη (téchne), i.e. de recapitulação, conservação e co-evolução tecnológica, enquanto prática de transformação da matéria e do ser.


Copyright © 2010 by António Cerveira Pinto



NOTA

Este texto serviu de base a uma comunicação ao grupo de conferências subordinado ao tema “Memória do Efémero”, realizadas na Universidade da Madeira, Funchal, a 6 de Novembro de 2010. Oradores: António Cerveira Pinto, Idalina Sardinha, Isabel Santa Clara, Nuno Crespo, Paulo David.

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